A cidade que nunca foi minha

31.1.08


Não acredito em vidas passadas e muito menos em memória genética. Isso soa um tanto Lamarck e já me convenceram (pais biólogos) que Darwin estava certo. Como poderia então explicar uma sensação de já ter vivido em uma cidade onde nunca havia ido?

Demétrio Ribeiro, Barros Cassal, Theatro São Pedro, Praça da Matriz, IAPI, Esquina Democrática, Ramiro Barcelos, todos os lugares pareciam já meus conhecidos. Seriam meus antepassados? Todas as revoltas e revoluções, os gaúchos da família a galope estavam em meu sangue? Mas não acredito nisso, é totalmente irracional.

Com o tempo descobri, era influência de tantos livros lidos com personagens andando pelas paisagens da capital gaúcha. E antes disso, histórias da família contada por parentes. Deve ser daí a impressão de já ter vivido naquela terra. Fui então criando minhas próprias experiências, vivendo e fazendo amizades, fabicanos*, conhecendo lugares novos, Morro Santa Teresa, Floresta, Bom Fim, Usina do Gasômetro, Cidade Baixa, Garagem Hermética, Casa do Quintana, Praça da Alfândega, o tal Bar João, da música de Kleiton e Kledir.

Quando morava em Porto Alegre, adorava caminhar em volta do Rio Guaíba, principalmente no segundo semestre de 1999. Fiz a maluquice de me matricular em várias disciplinas. Quando ficava louca com tanto estudo, saía para ver o rio. Ia e voltava a pé do Gasômetro até o estádio do Beira-Rio (procure em um mapa, eu andava muito). Levava walk-man e ouvia Milton Nascimento. Até hoje quando escuto as primeiras notas do baixo na música Clube da esquina II sinto-me como se estivesse em Porto Alegre, um dia de sol, eu olhando um barco preguiçosamente atravessando o Guaíba. "E o coração na curva de um rio, rio, rio".

Torci pelo Inter, como já há tempos fazia, influenciada pela maioria colorada da família. Tentei adotar a cidade como minha. Não deu certo, voltei. Agora vou no embalo de Vitor Ramil em Ramilonga: "Olho o cotidiano, sei que vou embora. Nunca mais, nunca mais".

"Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí(...)

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais."

*Fabicanos: estudantes da FABICO (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS)
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O colégio onde nunca estudei

28.1.08
Ontem, domingo frio e de chuva (agora deu para fazer inverno em Curitiba) fui fazer uma prova sei lá para qual cargo em um concurso. O local era o colégio em que minha mãe lecionou durante muitos anos. Entrei e achei tudo pequeno. Avistei uma escada que um dia, assim como o de ontem, chuvoso e frio, um gatinho preto e branco molhado caminhava entre os estudantes. Tive vontade de levá-lo para casa.

Várias vezes acompanhei minha mãe a esse colégio quando era criança. Assistia a suas aulas de Biologia sem saber ainda o que eram os tais genes. Achava seus alunos adultos, mas a maioria tinha entre 15 e 18 anos. Poucos tinham mais de vinte anos. Eles me chamavam de professorinha e eu ficava encabulada. Depois me soltava e bastava a mãe-professora sair da sala para eu me juntar a eles na bagunça. Certa vez, vi um aluno colar na prova, mas não falei para minha mãe.

Muita coxinha comi na cantina da escola, muita sopa tomei com os professores e muitos desenhos malfeitos fiz no quadro negro. Uma vez, quando minha mãe se ausentou da sala por uns instantes, fiz desenhos obscenos, influenciada pela turma do fundão. Não havia percebido que naquela turma, havia uma freira. Lógico que ela reclamou para minha mãe que me deu um sermão.

Ir para o meu colégio era um tormento. Ficar sentada na sala de aula sem poder me mexer muito para a professora não chamar a atenção ou fazer o tal "soninho" quando terminava a tarefa eram angustiantes. Mas acompanhar minha mãe com seus divertidos alunos era o máximo. Ontem, antes de iniciar a prova, pude relembrar um pouco esses momentos sentada nas cadeiras que foram ocupadas por esses meus amigos mais velhos.
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Diretamente do Planalto Central

25.1.08

Ontem, estava eu chateada, achando que o universo conspirava contra mim, pois nada dava certo. O frio em Curitiba (10º C em pleno verão) estava convidativo para me enfiar debaixo das cobertas. Tomei uma decisão importante, tirei um cochilo. Uma hora depois, achando já que o dia estava perdido, entrei na internet. Visita a blogs, e-mails e bate-papo no MSN com prima Bia (me fazendo rir com suas caretas para imitar Fernanda Torres).

Eis que recebo uma ligação de Brasília, eu me sentindo a própria Cristiana Lobo, com direito a atender celular em pleno programa do Jô. Calma, nada de deputado ou senador. Era Vírgula Antenada, com quem converso pela Internet há menos de um mês, "Prazer Luiza", disse ela. E eu ali, tremendo de frio me sentindo somente eu, enquanto ela é Denise, Vírgula, quem sabe também Magnólia, Aretuza, Gertrudes Ximenes, até Hilário. Sim, Denise Machado existe!

Com bom humor, trocamos umas idéias, e eu de novo, somente Luiza, e ela pedindo para eu assessorá-la, pois Vírgula Antenada irá lançar livro. Começou de mansinho, com seus três blogs (isso mesmo, três!). Todos eles sempre atualizadíssimos. Agora pintou o convite para transformar suas histórias em livro.

Os fãs de Vírgula Antenada ou V.A., como gosta de ser chamada, sempre diziam sobre seu potencial, mas ela tinha certo receio. Na verdade, ela tem os pés no chão, bem firmes. A hora certa de decolar, ela saberá. Seus admiradores já sabem que o momento é agora. E quem não gostar, faça como Dra. Gê, amputa!

Os endereços dos blogs:

miraverde.blogspot.com

cretinoheroi.blogspot.com

virgulaantenada.blogspot.com


Comunidade no Orkut:


www.orkut.com/Community.aspx?cmm=31358493
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Moda dos anos 2000

23.1.08


Vi, esfreguei os olhos para enxergar melhor, lembrei-me de que estava com lentes de contato, quase as perdi, mas sim, era aquilo mesmo, tênis novos na vitrine como se fossem sujos. Já vi calças com manchas de água sanitária, camisetas como se estivessem do lado avesso, mas roupa nova com cara de suja, isso nunca. Já que é porquice, sugiro meias com cheirinho de queijo. Já pensaram? Vou aumentar minha grife, camiseta com cheiro de cebola embaixo do braço. A moda pega, hein? Ah, se pega...

Eu, certamente não usaria, mesmo sendo a última moda porque sempre penso na reação de pessoas com mais idade. O que pensaria minha avó se visse aquela sujeira em meus pés? Ficaria escandalizada, ia mandar imediatamente neta e tênis para o tanque. "Lave esses calçados e essa mente cheia de idéias absurdas". Mais, penso nas pessoas que usam essas coisas e daqui a alguns anos se depararão com uma foto do passado e "credo, que coisa horrorosa eu usava", deixando os mullets dos anos 80 no chinelo.

Não manche seu passado, use roupas limpas. Não afugente a vovó, compre tênis comuns. Além do mais, pagará caro, pois o trabalho que os fabricantes tiveram em produzir uma sujeira eterna está incluído no preço. Eles fazem o trabalho sujo e você não paga menos do que cem reais por um par de tênis. Vale mais a pena nós mesmos sujarmos e quando a vovó nos visitar, é só lavar.
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Linguagem complicada

20.1.08


Não rio na terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo haver, nem na sigla do Rio Grande do Sul. Isso não é uma crítica a quem faz isso, mas uma explicação, eu rio em Português, rarrarra! Se em algum bate-papo virtual eu escrever rarrarra, não estranhe. Os hablantes da Língua Espanhola, por exemplo, riem jajajaja (lê-se rarrarra).

É sabido, como foi postado anteriormente, que a jumenta aprendeu a usar o computador na marra por pressão dos colegas de faculdade. Então, como nada sabia e muito menos da linguagem usada, catava eu alguns milhos no teclado, quando algum ser em um chat digitou rs. Ainda bem que eu era lenta demais para digitar a ponto de pensar bem antes de pressionar a tecla enter. Estava digitando, "de qual lugar do Rio Grande do Sul você é", quando "puf", apareceu a imagem de uma amiga dizendo que na internet era tudo diferente e que rs significava riso.

Passar vergonha? Nunca! Apaguei e mudei de assunto, disse que também tinha um primo com as iniciais tc, o Teodoro Cunha. A pessoa mandou vários ????? e saiu da conversa. Depois da gafe, só entrei novamente na internet após um curso intensivo sobre bate-papo on line. Mas ainda escrevo rarrarra. Certifiquei-me de que não era pecado e prossegui na risada.
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Meus es

18.1.08


Estou cercada por ela. Todos começaram do mesmo jeito. Meu namorado, meu pai, meu irmão, meu avô, minha avó, até minha mãe tentou fugir, mas não deu certo, o cartório errou. Ou acertou? Eugenio, três vezes Elias, Ema e Elena. Todos com a letra e no início. Eu consegui escapar.

Começo de ano vem com planos, lista das futuras realizações para os 365 dias. O meu começa sem isso. Dois mil e sete veio com Elis Regina, numa ânsia de ouvir todas as canções que ainda não conhecia em sua voz. Paixão avassaladora, li em um único dia Furacão Elis, fiz meus vizinhos baterem a cabeça de raiva. Já não suportavam mais a voz da Pimentinha. Foi assim o ano inteiro, sem maiores planejamentos.

Quando o ano findava, eis que novamente ressurge outro e, Erico Verissimo. Resolvi reler as obras já lidas. Assim, as páginas foram me consumindo. Passei a freqüentar a biblioteca. Chegava lá de madrugada, "vamos, abram logo isso senão eu varo à bala", influenciada pelos personagens do Tempo e o vento e pela impaciência de Elis. Proibiram-me de voltar durante uma semana. Por sorte encontrei em casa Solo de clarineta, o livro de memórias de Erico.

Peço então, por favor, para 2009, não me digam nada que comece com e. Não vou agüentar outro ano assim. Esse já está comprometido pelo velho e bom Erico. Até recusei assinatura por um ano de Época isenta de pagamento para evitar maiores obsessões.
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Bichos sujos

17.1.08

Dez anos se passaram. Lembro como se fosse hoje, eu em Curitiba, o resultado em Porto Alegre. Internet nem pensar, na época não sabia nem segurar um mouse, aliás, não sabia para que servia tal dispositivo. O jeito foi telefonar para os cursinhos gaúchos. Ocupado. Redial. Ocupado. Foi essa tortura durante uma meia hora. O medo aumentou quando o telefone começou a chamar. A voz do outro lado perguntou meu nome e "aprovada", disse ela. Choros, abraços, tontura e a dúvida. Será mesmo? Eita São Tomé. Ligação novamente. Sim, estava certo, eu era uma caloura.

Alguns anos antes do meu vestibular, havia uma propaganda de um famoso cursinho que dizia o seguinte: "passar no vestibular é um grande desafio. Por isso, não estranhe essa gente que não sabe se ri ou se chora, amanhã pode ser você". Sou manteiga derretida, chorei no final de "Monstros S.A.", é óbvio que chorei vendo esse comercial, mesmo achando um pouco brega. Está bem, eu me emociono até hoje só de lembrar. Quando passei no vestibular, veio isso na minha cabeça. "Amanhã pode ser você", sim, eu queria aquilo mais do que qualquer outra coisa e havia chegado o dia.

Mês de janeiro é assim, um bando de jovens enlameados com a cara suja de tinta gritam pela cidade. Acho divertido, ao contrário de outros. Só quem não passou por isso reclama, chamam-nos de ridículos, mas passar no vestibular em uma universidade pública é uma grande conquista pessoal. Os pais ajudam, pagam os estudos, incentivam, mas na hora do concurso é o estudante e a prova, nada mais. Como posso achar ruim, dizer que são uns exagerados se na época foi para mim a melhor coisa do mundo? Se falam, "aí, tia, estou na Federal", vou logo dando parabéns e perguntando qual é o curso. Bato um papo e depois reclamo de terem me chamado de tia. Calma aí, não cheguei ainda aos trinta, estou quase lá. Despeço-me, vou para casa de ônibus e eles a pé. São proibidos de subir em coletivos daquele jeito. Mas não ligam e saem pulando e cantando pelas ruas irritando os mal-humorados.
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Velhinha, mas dá para o gasto

16.1.08


São Paulo terra da garoa, Curitiba cidade da chuva forte. Por isso, esteja em uma ou em outra, ande sempre prevenido. Lembro-me do professor de Biologia falando, sempre chove em algum local do planeta. Se não estiver chovendo em lugar nenhum, em Curitiba está.

Sombrinhas são excelentes. Quando estão fechadas são práticas, compactas, cabem em qualquer bolsa ou embaixo do braço sem que fiquemos esbarrando com elas em portas, pessoas e carros. Fácil também de ser colocada nas caixinhas dos bancos quando a maldita porta giratória tranca.

Ao longo dos anos, comprei várias em camelôs. Duravam apenas algum tempo porque logo quebravam. Bastava um ventinho para se arrebentarem. Até que um dia minha mamãe querida trouxe uma sombrinha linda, leve e cara. Custava cinco vezes mais do que as frágeis compradas no meio das gritarias de "guarda-chuva cinco real". Era uma maravilha, forte, secava rapidamente. Tentava não esquecê-la nos lugares em que ia. Quer coisa para se perder mais facilmente que guarda-chuva ou sombrinha? Você sai de casa com chuva e se voltar sem chuva, pronto, é batata, esquece no ônibus, no colégio, no consultório e bye, bye.

Não vou negar, durante todos esses anos já a esqueci na casa da amiga de meu namorado. Ela não sabia de quem era aquela coisica e colocou em seu blog visitado por muitos: "algum mané esqueceu aqui uma sombrinha cor de cocô". E como custei a ir lá resgatá-la, ela perguntava, "não vem pegar o trocinho"? Sem ela, tive de me contentar com uma coloridona comprada em uma loja de presentes. Usei algumas vezes e logo quebrou. O Gato Neko ajudou a detoná-la de uma vez jogando aquele corpanzil de gato bem alimentado por cima dela em suas brincadeiras frenéticas.

Meu temor mesmo são os portas guarda-chuva, aqueles cilindros onde depositamos guarda-chuvas (eita pluralzinho encrencado) encharcados. Por exemplo, na entrada de um restaurante, enquanto estou saboreando a comida, algum espertinho pode levar minha marronzinha de onze anos embora. Por isso, coloco-a em uma sacola de plástico que vai junto comigo para não ter maiores preocupações.
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Rede Globo, parte II, nada de BBB

15.1.08

Tudo bem, tudo bem, Blogocular também é cultura inútil. Não posso deixar de registrar minha insatisfação com a novela "Duas caras". Seria uma continuação de "Senhora do destino"? Figuras repetidas, Suzana Vieira, Renata Sorrah, José Wilker, Débora Falabella, Letícia Spiller, Marília Gabriela (atriz?) e Wolf Maia em uma nova história um tanto inverossímil.

Em "Senhora do destino" o autor errou na cronologia, o que me deixou emputecida a ponto de deixar de acompanhar a trama logo no início. Já "Duas caras", quando vi ser do mesmo autor, comecei a acompanhá-la bem depois. Mas ontem percebi um escorregão na história, como em pleno mês de janeiro, a faculdade está lotada de estudantes? E ainda em aula!

O mais legal de tudo ontem foi ver Tony Ramos no papel sempre igual de Tony Ramos acompanhado de sua esposa comparecendo à inauguração do restaurante do chato e suado Bernardinho. Imaginem Tony Ramos aceitando convite para ir comer sabe-se lá o que em uma favela. Ainda mais que do rosto do cozinheiro vive brotando litros e mais litros de suor empapando os bolinhos de bacalhau, especialidade da casa.

Finalmente pude conhecer a esposa do ator, mas ele não deu o devido valor a ela. Deveria tê-la apresentado como "Esta é Lidiane, minha esposa que pinta com perfeição meus cabelos brancos e agora meus pêlos". E haja tinta!
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A gente se vê por aqui

13.1.08

Pode alguém viver sem a Vênus Platinada? Minha prima do Rio vai mandar fazer uma tatuagem: "porra, eu não tenho Globo". Mesmo morando na mesma cidade do Projac, a emissora não pega em sua televisão.

Todos os dias responde sempre a mesma coisa para diversas perguntas:

– Viu que o Juvenal Antena não morreu?
– Não tenho Globo.
– Você entendeu aquela notícia no Jornal Nacional?
– Ai, não tenho Globo.
– Aquele barbudo do Big Brother é um mala, né?
– Puta merda, não tenho Globo!

A idéia da tatuagem é boa, alguém comenta o Fantástico e ela só levanta a manga da camiseta: "Não tenho Globo e sou muito feliz por isso". Prima, que inveja eu tenho, sério mesmo. A vida é tão boa sem ter de ver Marília Gabriela com aquela voz de travesti não tendo pretensão de ser boa atriz e sim um rostinho bonito. Ah, vá se catar, nunca foi bonita, tribufu! Plásticas não adiantam. Por falar em recalchutar, Pitanguy deveria fazer uma plástica no cérebro do Reynaldo Gianecchini. Onde já se viu comer (peguei pesado?) aquela coisa durante anos?
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Bah, guria, olha a fila

12.1.08

Kledir Ramil, meu grande companheiro de fila em bancos! Das poucas vezes que visito Itaú, Caixa, Bradesco e HSBC – a Internet veio nos facilitar a vida, mas há coisas que só podemos fazer pessoalmente – carrego comigo "Tipo Assim", livro escrito pela metade da dupla Kleiton e Kledir. Não são sertanejos, são aqueles gaúchos que cantam "Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau". Kledir (ou Kleidir como Evandro Mesquita o chama) é o magrão que não usa óculos. São bem escritas e engraçadas as crônicas desse vegetariano. Onde já se viu gaúcho não comer carne?

Meu livro (deixa eu me achar um pouco) possui uma dedicatória assim: "Luiza, meio gaúcha, meio curitibana, tipo assim, tudo de bom. Um baita beijo, Kledir". Ok, já nem lembro mais o que disse a ele. Provavelmente minha amiga que estava também acompanhando o lançamento do livro disse a ele que eu era colorada, já havia morado na sua querência amada e hoje estava aqui na terra do leite quente. Ele, também como bom colorado ("e a galera no Beira Rio") deve ter captado que eu amo o Rio Grande e escreveu aquilo.

Já curtia um monte a música dele e não levo o MP3 ao banco para ouvir o caixa me chamar, mas não adianta. Distraio-me lendo "Tipo Assim". Quando percebo estou com um sorrisinho bobo no rosto de algo que li e o funcionário e as pessoas da fila me olham impacientes. É Kledir, você às vezes me faz passar vergonha.
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O Vasco e a Barbie

11.1.08
Estava entrando no supermercado quando um menino de uns cinco anos cantando aos gritos "eu sou um negro gato" puxava sua mãe para dentro do estabelecimento. O guri, vestido com uma camiseta do Vasco, estava vermelho de tanto berrar. Alguns adolescentes começaram a rir do moleque que nem percebeu o sucesso que estava fazendo.

Resolvi, boba alegre, cantar para ele "vamos todos cantar de coração, a cruz de malta é o meu pendão". O mini-vascaíno me olhou com uma cara muito estranha e pensei, pronto vai cuspir em mim. Para minha surpresa, o menino se envergonhou e foi se esconder atrás de sua mãe. Desta vez eu que fiquei vermelha, com cara de idiota. Ué, não era ele que estava cantando "Negro gato" quase botando os pulmões para fora e eu, colorada, fazendo um sacrifício, não podia cantar em homenagem a ele o hino do Vasco?

Saí fracassada do supermercado e uma menina de uns sete anos conversava animadamente atrás de mim com uma mulher. A menina de repente soltou: "sabia que não acho mais Barbie em lugar nenhum do mundo? Já fiz pesquisa em todas as redes e não encontro. Não estão mais fabricando na China". E a mulher disse: "ah, é?"

Eu tive vontade de entrar também naquela conversa, achei uma graça como ela falava. Mas, lembrei-me do vascaíno negro gato e me contive. Às vezes tenho surto de Clarissa, personagem de Erico Verissimo que sentia um forte desejo de dar bom dia a todos na rua e abraçar todos seus conhecidos. Eu às vezes sinto vontade de sair conversando com todos na rua. Porém, as crianças, seres puros com quem poderia compartilhar esse impulso são más, elas debocham da minha cara, se fingem de tímidas quando na verdade são umas arteiras. Eu devia ter cantado "uma vez Flamengo, sempre Flamengo" para aquele fingidinho.
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Borboleta 88

9.1.08

Há vinte anos utilizaram a borboleta 88 como símbolo de esperança para o ano que entrava. Lembro-me de que foi utilizado o seu desenho em sacolas plásticas, se não me engano, de alguma loja. Havia uma propaganda na televisão de um mímico com o rosto pintado com a borboletinha na mão. Eu era criança e ficava pensando, como encontraram essa borboleta justamente naquele ano? E achava que só existia uma. Depois fiquei sabendo sobre a espécie e que ela não era a única.

Eu tinha um certo medo daquilo tudo. A borboleta parecia transmitir o fim do mundo, porque afinal de contas, no decorrer de 1988, vi muita coisa ruim acontecer. Em fevereiro houve enchente no Rio, recordo-me da campanha de arrecadação de mantimentos no colégio; tirei três na prova de Matemática; a professora era muito bacana e saiu para entrar uma bruxa no lugar; Morreram Chacrinha, Henfil e Chico Mendes; o Internacional, meu time perdeu o campeonato brasileiro (Copa União) para o Bahia e no último dia do ano, o Bateau Mouche afundou. Percebi que a pobre borboleta não poderia mudar nada daquilo.

Se o inseto não for extinto, poderão utilizá-lo novamente daqui a 80 anos, em 2088. Até lá, as sacolas não existirão mais, mas televisão, creio que sim. Poderão novamente tentar levar esperança com a borboletinha. Eu com certeza já não estarei mais aqui. Vocês também não. Quer dizer, alguns Niemeyers, Dercys Gonçalves, Robertos Marinhos e D. Canôs sim.
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Novamente a coruja

6.1.08
Estava eu conversando com minha prima no Messenger sobre a música "Corujinha". Ela comentou no blog que também achava a música triste. Falei sobre o aperto no coração de ouvir a música na voz de Elis.

Quando era criança, lembro-me de um domingo chuvoso com meu pai corrigindo provas e a música na vitrola. Não era ainda tempo de CD. Domingo já é um dia ruim, pois é véspera de segunda, dia de aula, aquele era com nuvens, meu pai sem poder dar atenção para mim e música triste pela casa.

Depois, ouvia todo o disco, menos essa. Já passada a infância, resolvi ouvir o disco e percebi que todas as músicas estão riscadas, menos "Corujinha". Claro, nunca ouvia, ainda mais com Elis, interpretando de seu jeito maravilhoso, deixando a música mais triste ainda, o que minha prima concordou. "Ela faz a gente ficar com pena mais pela voz dela do que pela música. Se fosse cantada em rock, voz alta e tal, nem seria tão dolorida", disse a prima.

Sugeri então Cássia Eller. Cabe aqui um comentário antes de alguém achar semelhança nas duas cantoras, como a causa da morte de ambas ter sido overdose de cocaína (será mesmo?) e o mesmo tipo de cobertura jornalística dada pela revista Veja. Não foi pela semelhança, mas por me lembrar de Cássia Eller cantando "A Cuca te pega" do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Uma "Corujinha" com arranjo diferente, bateria, guitarra, baixo e a voz rouca de Cássia. Tudo para não sentirmos mais angústia por causa do bichinho. Sei que a música perderia um pouco do encanto do jeito que está, mas ainda sinto uma tristeza ao ouvir Elis cantá-la no toca-discos. Ainda não comprei o CD com a música.
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Coruja formosa

5.1.08

Já escrevi aqui sobre a música de Vinícius de Moraes e Toquinho, "Corujinha", que deixava triste minha infância. Sentia pena do bichinho feio, além da história que depois fiquei sabendo sobre a pobre mãe coruja sempre achando seus filhos os mais lindos de toda a fauna.

Uma das chamadas no telejornal do dia 01º de janeiro foi a seguinte: "e veja no próximo bloco, corujas impedem a comemoração da passagem do ano no litoral gaúcho". Vibrei achando que as aves estavam dando bicadas nas cabeças dos invasores, justo a corujinha feia de Vinícius, que valentia!

Depois do intervalo, vi a matéria, não foi bem o que imaginei. Muita gente esperava ansiosa em Capão da Canoa para ver a queima de fogos. Faltando pouco tempo para o espetáculo, a polícia ambiental, temendo pela tranqüilidade dos animais, apareceu para acabar com a festa, para sorte das corujas que ali na areia construíram o ninho para seus filhotes.

Muitos reclamaram, inclusive o prefeito. Outros saíram em defesa dos bichinhos. As corujas, no início nada entenderam todo aquele povo lá na praia na mesma hora, mas depois pensaram bem e concluíram:

(Coruja mãe) – Vieram ver nossos filhos, lindos filhotes, os mais belos de todos.
(Coruja pai) – Claro, e por que não viriam? Crianças tão lindas como as nossas...

"Hoje em dia andas vaidosa
Orgulhosa como quê
Toda noite tua carinha
Aparece na TV"
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Grande mestre Adoniran

3.1.08

Conhecem essas cestas com vários CDs em promoção? Eu faço um garimpo nesses lugares e às vezes encontro coisas muito boas no meio de "Babado Novo", "Calcinha Preta" e Latino. No final do ano passado, comprei uma coletânea com 28 músicas de Adoniran Barbosa. Maravilhoso. "Saudosa maloca" que eu só conhecia na voz de Elis Regina é mais animado com o compositor paulista. Mas a letra é comovente e bem falou Elis que cantava essa música lenta e arrastada porque não achava nada engraçado uma pessoa ser despejada do lugar onde vive: "Veio os home cás ferramenta/ O dono mandô derrubá". Adoniran gostava da interpretação da cantora porque ela levava a sério.

Mesmo tema encontramos na música "Despejo na favela" ("Não tem nada não seu doutor vou sair daqui pra não ouvir o ronco do trator") que Adoniran canta juntamente com Gonzaguinha, este, com voz mais séria do que a otimista "E vamos à luta" que toca na abertura de "Duas caras".

A maneira de cantar errado nos leva ao riso, mas se prestarmos bem atenção nas letras, elas são tristes. Confesso, chorei ao ouvir "Iracema" com Clara Nunes. "Bom dia tristeza" dele e de Vinícius de Moraes me arrepia, e gosto muito de "Prova de carinho" parceria com Hervê Cordovil: "Com a corda mi/ Do meu cavaquinho/ Fiz uma aliança pra ela/ Prova de carinho".

Noveleira que sou, a primeira lembrança que tenho é de "Tiro ao álvaro" ("De tanto levar frechada do teu olhar") na novela Sassaricando de Sílvio de Abreu de 1987, quando eu tinha oito anos. Eu cantava mais errado ainda porque entendia "meu bem tu até parece sabe o quê?" ao invés de "meu peito até parece sabe o quê?"
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Quantas notas?

1.1.08

Sempre gostei do programa "Qual é a música?" de Sílvio Santos. Adorava ver quando era criança, mesmo não sabendo nada de música, exceto as canções do Balão Mágico e da Arca de Noé. Mesmo assim, assistia sempre ao programa.

Não me recordo quem eram os participantes, mas hoje em dia vai muita gente brega. Muitas das músicas também são de gosto duvidoso. Mulheres multiplastificadas que outrora fizeram sucesso com suas vozes tremidas no final da frase musical (vibrato), duplas sertanejas e atores desconhecidos de novelas do SBT são os mais comuns. Mas eu gosto mesmo é de matar saudade da infância, e é claro, adivinhar músicas que somente as senhoras da platéia sabem. Canções do tempo de minha avó, por exemplo.

Quando eu falo isso, as pessoas falam "credo, mas você, tão inteligente vendo isso". Vou dizer uma coisa, eu adoro novela e não me envergonho disso. Também, às vezes gosto de ver um besteirol americano, desses bem escrachados como "Todo mundo em pânico" ou "As branquelas", assim como também leio Machado de Assis, Erico Verissimo, Cristóvão Tezza, Josué Guimarães, vejo e gosto de filmes do Almodóvar, Bergman, Kubrick e David Lynch. Chata mesmo é a pessoa que posa de intelectual e se reprime deixando de ver coisas que são puro entretenimento.

Então, se no domingo lá pelas 14 horas eu sair do MSN, é porque fui para a frente da televisão ver Sílvio Santos no não erre a letra, no vitrine musical, no relógio musical e no leilão das notas musicais.
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