
Não acredito em vidas passadas e muito menos em memória genética. Isso soa um tanto Lamarck e já me convenceram (pais biólogos) que Darwin estava certo. Como poderia então explicar uma sensação de já ter vivido em uma cidade onde nunca havia ido?
Demétrio Ribeiro, Barros Cassal, Theatro São Pedro, Praça da Matriz, IAPI, Esquina Democrática, Ramiro Barcelos, todos os lugares pareciam já meus conhecidos. Seriam meus antepassados? Todas as revoltas e revoluções, os gaúchos da família a galope estavam em meu sangue? Mas não acredito nisso, é totalmente irracional.
Com o tempo descobri, era influência de tantos livros lidos com personagens andando pelas paisagens da capital gaúcha. E antes disso, histórias da família contada por parentes. Deve ser daí a impressão de já ter vivido naquela terra. Fui então criando minhas próprias experiências, vivendo e fazendo amizades, fabicanos*, conhecendo lugares novos, Morro Santa Teresa, Floresta, Bom Fim, Usina do Gasômetro, Cidade Baixa, Garagem Hermética, Casa do Quintana, Praça da Alfândega, o tal Bar João, da música de Kleiton e Kledir.
Quando morava em Porto Alegre, adorava caminhar em volta do Rio Guaíba, principalmente no segundo semestre de 1999. Fiz a maluquice de me matricular em várias disciplinas. Quando ficava louca com tanto estudo, saía para ver o rio. Ia e voltava a pé do Gasômetro até o estádio do Beira-Rio (procure em um mapa, eu andava muito). Levava walk-man e ouvia Milton Nascimento. Até hoje quando escuto as primeiras notas do baixo na música Clube da esquina II sinto-me como se estivesse em Porto Alegre, um dia de sol, eu olhando um barco preguiçosamente atravessando o Guaíba. "E o coração na curva de um rio, rio, rio".
Torci pelo Inter, como já há tempos fazia, influenciada pela maioria colorada da família. Tentei adotar a cidade como minha. Não deu certo, voltei. Agora vou no embalo de Vitor Ramil em Ramilonga: "Olho o cotidiano, sei que vou embora. Nunca mais, nunca mais".
"Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí(...)
Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais."
*Fabicanos: estudantes da FABICO (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS)











