27.1.10

Um anjo




Imagine uma adolescente de 13 anos em uma turma de 45 alunos. Já meio encurvada por causa da timidez, no início do ano passava o recreio sozinha por se sentir deslocada. Pelo motivo de não ter amigos no colégio, queria sair de lá, mas, duas colegas se aproximaram e fizeram amizade.

Pense que, após o término do ano letivo, depois de passar pela experiência de ficar em recuperação em Matemática, com medo da reprovação, ganhou o melhor presente de sua vida, uma compensação, pensou ela, por tudo o que passou naquele período de 7ª série: um gato siamês. Um companheiro, alguém que sem precisar pedir permissão entrava em seu quarto e se acomodava em seu colo ou se sentava ao seu lado. Silencioso, como se compreendesse aquela fase tumultuada de uma não mais criança e ainda não mulher, tornou-se uma agradável companhia.

Já nos anos seguintes, fez a menina se divertir muito. Durante as lições de Desenho Geométrico, quando parava de desenhar para ajeitar a régua, ele dava tapinhas no lápis para prosseguir, como quem diz, “termine logo isso e vamos brincar”. Ou quando a Matemática se tornou novamente a vilã, na hora da tarefa, com a apostila aberta, simplesmente esparramava seu corpo sobre a matéria a ser estudada, evitando que sua dona estudasse. Também em seus frenesis diários, se pendurava na cortina de renda e subia até o teto, igual a um macaco.

Gostava de brincar com objetos simples. Uma bolinha de papel era brinquedo barato, mas muito divertido. Ficava horas entretido e algumas vezes, miava pedindo para alguém brincar juntamente.

O gato sentia cada vez que sua dona estava chateada. Com seus grandes olhos azuis, expressivos, olhava-a, parecia ter um enorme ponto de interrogação sobre a cabeça, assim como nas histórias em quadrinhos, sem compreender o que era aquilo, mas sabendo que deveria se aproximar para tirar aquela dor. Ele sempre fazia isso quando sua amiga entristecia.

Ou então, naqueles dias chatos de cólica, prontamente sentava em seu colo e só saía quando a dor aliviava. Parecia saber o momento certo. Depois, dormia como a se recuperar do esforço e retomar sua energia. Às vezes alguns medos infantis ressurgiam, dormir sozinha era difícil, mas lá estava seu amigo para adormecer junto e garantir bons sonhos.

Ela sempre falava dele para os novos amigos e por conta disso, mandavam abraços, beijos, afagos, agrados e lembranças ao gato. Conheceu outras pessoas que também adoram gatos e fez com que alguns que não gostavam dos pequenos felinos, os vissem com outros olhos e passassem também a admirá-los.

Reflita agora que esse gato viveu 17 anos e por todo esse tempo foi um grande companheiro. Imagine o sofrimento de perder o melhor amigo. Mesmo que você não goste de animais, que nunca tenha convivido com um diariamente ou ache um exagero por ser somente um animal, enquanto muitos humanos sofrem, entenda, é melhor amar demais do que maltratar qualquer ser.

Agora, a mulher tem quase 31 anos, com a maior parte da vida acompanhada pelo Betinho. Uma pessoa já adulta, mas que sente um grande vazio porque não tem mais seu companheiro que tirava a dor. Com muito mais amigos, mais segura e confiante, porém sem o amigo que mandava a tristeza para bem longe. Não entende as pessoas que dizem, “ah, mas já estava velhinho”, como se tivesse que se conformar, pois quanto mais tempo passamos com alguém que amamos, mais queremos tê-lo por perto.

25.12.09

Feliz Natal




Passada a crise, neste Natal foram tantas as compras que deu pane no sistema de cartões de crédito e débito. Parece que o povo pensou, "ufa, acabou o tempo de vacas magras, vamos torrar tudo, inclusive com inutilidades". Ontem, fui a um shopping aqui onde moro, na cidade que um dia se auto-proclamou de "cidade de primeiro mundo". Resolvi fazer as unhas, porque nos demais 364 dias não cuidei das mãos. Correria de trabalho, enfim, acho que merecia poder olhar para os dedos sem vergonha de escondê-los.

Mas, no mesmo andar do salão, lá estava ela, uma enorme urna transparente onde a burguesia curitibana depositava cupons para concorrer a um carro. A cada R$ 300,00 em compra, o consumidor tinha o direito de preencher um cupom. Aquilo transbordava de papel e me bateu enorme tristeza e vazio. Como somos fúteis, e eu me incluo nisto porque possuo também um cupom lá. Gastamos tudo isso em presentes para mostrar aos outros que temos dinheiro, "sim, posso comprar um presente caro para você, mesmo que depois fique no vermelho. Tenho de mostrar status".

Se as pessoas tivessem deixado de gastar todo aquele dinheiro e dessem para quem necessita, não digo só na Ceia de Natal, mas todos os dias, certamente mais gente seria alimentada. Brasileiros, estrangeiros, todos que vivem na miséria, que passam por nós e que fechamos os vidros de nossos carros importados. Aqueles que não possuem carro, de repente poderão ser sorteados e fazer o mesmo, apertar o botão ao lado e pronto, a miséria some atrás do vidro escuro.

Afinal, o que é o Natal? A chegada do Papai Noel? Então você se mata de trabalhar o ano inteiro, sua para dar um presente a seu filho e quem leva a fama é o "bom velhinho"? Natal, caso não se recorde, é a comemoração do nascimento de Cristo, o homem mais socialista da História. Não é à toa que ateus, mesmo sem acreditarem em Deus, admiram as histórias do Filho.

Cansei-me dessa comercialização de datas importantes para nós cristãos. Já não compro mais presentes de Natal, quer dizer, somente para minhas sobrinhas, presentei-as com livros. Quando viram o Papai Noel, as duas se desesperaram, choraram, não queriam saber de chegar perto do barbudo. Acho que elas no fundo concordam com a tia...

19.12.09

Ídolos




Kleiton e Kledir lançaram trabalho novo e eu sempre ficava acompanhando a agenda de shows da dupla pela comunidade no Orkut. Mas, como ando muito atarefada, ficava semanas sem ver nada. Mesmo com dois gatos em casa, a internet a gato não funcionou mais. Minha prima sugeriu que eu colocasse bom bril no rabo dos bichanos, mas só ganhei arranhões e mordidas.

Quase perdi a apresentação deles em Curitiba juntamente com um coral em frente ao antigo Museu Paranaense que foi restaurado. A dupla saiu de dentro do ex-museu e deduzi que voltariam para lá quando terminassem. Então, quando estavam já tirando as alças dos violões do pescoço, minha amiga disse para eu correr para trás do palco. "Kledir", falei, e fiz sinal como fazem os clientes ao garçom para pedir a conta. Ele disse: "vem aqui". Estava quase entrando juntamente com a imprensa, mas um rapaz da produção disse para eu esperar. Se ao menos tivesse levado a carteira de jornalista, mas aquilo tem quase o tamanho de uma folha A4 e carregá-la na bolsa seria complicado.

Uma moça da produção informou que quem quisesse falar com a dupla, teria de fazer fila atrás de mim. Que honra, eu a primeira, só lembro de ter chegado antes de todos quando era bem pequena, um serzinho minúsculo. Quando entrei, a mesma que me deixou ser a primeira falou para outro rapaz, "coisa rápida, foto, autógrafo e nada mais". Eu respondi, "que coisa rápida, o quê, eu vou é trocar figurinhas", referindo-me à nova música, "coisa boa é um amigo pra poder encontrar e trocar figurinhas".

Fui direto no Kleiton porque do Kledir já tenho autógrafo no livro Tipo assim. Lembrei-me de um vídeo em que o Kleiton fala: "eu sou o Kleiton, mas pode me chamar de Kledir". Não pude perder a piada e quando o vi, o chamei de Kledir. Porém, como ficou sério e provavelmente pensando, "quem é a maluca?", logo disse, "brincadeira, Kleiton"! Perguntei quando haveria show e ele disse que não tinha nada certo, mas que viriam os dois fazer o workshop Letra e Música. Disse que eu havia participado juntamente com meu marido há cinco anos, mas na hora de começarmos a compor, como não entendemos muito de música, saímos praticamente fugindo, e como a dupla estava na porta, demos a desculpa de que tínhamos de acordar cedo no dia seguinte. Ao ouvir tal história, finalmente Kleiton sorriu, quer dizer, soltou uma gargalhada. Mais uma vitória, consegui que o mais sério mostrasse os dentes.

Ele autografou o CD, passou para o irmão também assinar. Nem fiquei trocando figurinhas como havia dito, não sou dessas fãs chatas que não param de perturbar. Agradeci à moça da produção que disse: "ué, que rápido". Ela havia realmente acreditado que eu ia ficar horas conversando com Kleiton e Kledir. Imaginou que eu havia sido a primeira da fila porque iria ficar um tempão lá dentro, mas fiz questão de ir logo porque no dia seguinte desta vez realmente precisava acordar cedo.

6.12.09

Campo de futebol ou de batalha?

O que me deixou enfurecida hoje não foi o fato de o Inter ser novamente vice. Isso já era de se esperar, afinal, dependíamos do Grêmio e de tão acostumada a também torcer sempre contra o adversário, por uns momentos, ao ver aquela camisa tricolor em campo, sem querer, ficava feliz quando o Flamengo tirava a bola. Força do hábito.

Acho que o futebol é uma alegria fabricada e não ficarei magoada, porque como já disse, não era eu em campo. Não perco nada e ficar triste por isso é uma besteira, tenho mais o que viver.

Parabéns ao Flamengo, antes ele do que São Paulo ou Palmeiras. É uma questão pessoal, prefiro os times do Rio, e nada tenho contra os paulistas, somente contra seus times.

O que me entristece e me choca é ver como certas pessoas, independentemente dos times pelos quais torcem, fazem coisas irracionais e absurdas por nada. Hoje, ao ver torcedores do Coritiba invadirem o campo e baterem em pessoas que estavam lá trabalhando para muitas vezes defenderem os filhos dos outros, chocou-me, assim como qualquer pessoa sã ficaria horrorizada.

É nessas horas que dá vontade de deixar de torcer e não quando meu time perde. Porque meu time hoje mostrou que não é só bom, mas um dos melhores e me dá esperanças de no ano que vem, quem sabe, ser campeão brasileiro ou até da Libertadores.

Mas, ao ver barbaridade como a dos torcedores do Coxa, em que no momento, sou refém em minha própria casa, porque a cidade lá fora pode estar um caos, tenho vontade de largar essa minha paixão pelo futebol. Mas, nada ia mudar. Os vândalos ainda estariam a solta e continuariam a utilizar tal esporte só para descarregarem suas frustrações.

19.11.09

Lamento de cativeiro

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me! Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o Carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica do Brasil. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, peça, escravo. Fui a mãe preta para teus fihos. Cultivei os campos, plantei o fumo e a cana. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, de gente pobre mas livre. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza seja para sempre verdade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.

E quando se pensaram políticas que reparassem a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades, a maioria dos teus grita: é contra a Constituição, é uma injustiça social.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Leonardo Boff