Assim como Vinícius

19.8.09
Havia algum tempo já separado alguns objetos depois daquelas mega-arrumações que todos nós fazemos, isso vai ali, esse é pra jogar fora, aquele livro é presente para o Zeca, aquele xerox tenho que devolver a Lígia e esses são os próximos livros que pretendo ler, dentre eles, Budapeste, de Chico Buarque.

O livro, presente de minha amiga Luciana, me aguardava há seis anos. Não é preguiça de ler, é desconfiança. Quer dizer, era. Sempre fico com uma pulga atrás da orelha quando alguém se aventura por outras áreas, mesmo sendo o Cara. De Chico, havia lido Estorvo, mas na época lia pensando em acabar logo, chegar à última página rapidamente, prestar atenção somente na história, sem me dar conta do estilo, da poesia na prosa, do uso perfeito de determinada palavra dentro daquela frase. Como pude desconfiar de Chico, sendo que ele faz letras e melodias maravilhosas?

Por ser escrito em primeira pessoa, pequei em imaginar no personagem o próprio Chico. Mas, para quem compôs Partido Alto, "Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio, pele e osso simplesmente", sendo o oposto, deveria dar ao personagem outra cara.

Estava sem rumo, as aulas adiadas para evitar contaminação de gripe, um restinho de férias do trabalho e não podia adiar mais. O livro e o xerox foram entregues prontamente, mas Budapeste me encarava, "e aí, vai ler ou não vai"? Sim, vou, seria muita desfeita com um presente ganho por amiga tão querida. Comecei em uma noite. Já gostei de primeira página. Não conseguia desgrudar os olhos. Desta vez, consegui distinguir Chico do personagem principal. Na cozinha os gatos miavam de fome, seus potes de ração vazios, "só mais esse capítulo", dizia, mas não me entendiam, queriam comida.

Dei pausa na leitura e percebi que também estava com fome. Deixei para o dia seguinte a continuação. Ao finalizar a obra, tive que dar o braço a torcer, Chico é gênio e tudo que toca se transforma em ouro. Ainda me faltam Benjamin e Leite Derramado, este último, dei de presente a minha mãe que me disse, "é maravilhoso, mas estou lendo aos poucos para não acabar logo". Se fosse eu, lia tudo de uma vez e se achasse ótimo, recomeçaria de novo. Chico fez o caminho inverso de Vinícius de Moraes, da música para a Literatura. Ambos brilhantes.
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Chico, simplesmente

14.8.09



Minha história com Chico Buarque é assim, nunca o vi pessoalmente e é claro ele nunca a mim. Quer dizer, fui a um show dele em 1998 no Guairão com minha amiga Denise. Ou foi em 1999? A idade vai chegando e as datas vão se embaralhando.

Conheci Chico pela minha mãe, esta sim já teve a oportunidade de falar com ele nos idos da década de 1970. Ela foi a uma apresentação com uma amiga também. Depois, foram a um bar. Estavam sentadas e de repente chegou Chico Buarque e sua turma. Minha mãe, na maior cara de pau fez sinal com a mão e disse, "Chico, vem cá", e ele foi. Conversaram rapidamente sobre a apresentação dele. Chico agradeceu e foi se sentar com seus amigos. A amiga estava vermelha, com a cara quase a explodir. Envegonhada, desses acanhamentos que Curitiba causa desde a nascença, queria um autógrafo. Minha mãe, gaúcha desinibida, prontamente foi à sua mesa que estava rodeada de outras personalidades, assim como Sérgio Cabral, pai do atual governador do Rio de Janeiro. Minha mãe pediu autógrafo para sua amiga, mas Sérgio Cabral se intrometeu, falou alguma coisa enrolada e minha mãe respondeu, "não falei contigo, falei com o Chico". Obviamente que Chico na maior simpatia deu o autógrafo que nem era para minha mãe.

Quando eu era criança achava aquelas músicas muito chatas, não entendia, queria saber só de Balão Mágico. Com 15 anos fui realmente apreciar a obra de Chico Buarque. Primeiramente com as músicas de conteúdo político, depois as demais. Denise que foi ao show comigo, antes disso não entendia meu gosto musical, até que um dia me ligou quase chorando, "me apaixonei pelo Chico!". Havia escutado uma fita K7 de seu pai e adorou as músicas. Chico é assim, sempre encantador. Se você ainda não acha isso, quando conhecer melhor sua obra, vai também se encantar.
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Atitude

10.8.09



Meu dentista uma vez perguntou para que curso eu ia prestar vestibular. Quando disse Jornalismo, ele de cara disse, "vai trabalhar na Globo!", como se aquilo fosse a melhor coisa do mundo. Estava com a boca aberta e os dentistas se aproveitam dessa situação para falarem besteiras sem podermos responder. No primeiro momento após cuspir, disse que a Globo era uma grande manipuladora e que jamais trabalharia lá. Ele disse, "você diz isso agora com 17 anos, quero ver quando tiver filhos para sustentar. Aí, você vai escolher quem pagar melhor". Como se entrar na toda poderosa fosse muito fácil.

Eu e um colega uma vez vimos um documentário sobre Glauber Rocha em que Arnaldo Jabor criticava a Rede Globo. Pouco tempo depois, soubemos que Jabor era o novo contratado da Globo. Combinamos de jogar qualquer coisa nele quando o víssemos pessoalmente. Encontrei-o uma vez no Aeroporto Salgado Filho, mas como não tinha nada em mãos e por estar meio longe, não pude atirar nada. Também deve-se levar em conta que tenha uma pontaria muito ruim. Reforcei ali para mim mesma não seguir os mesmos passos de Jabor.

Esse mesmo amigo ameaçou jogar o chinelo na televisão caso me visse na Globo. Não trabalho lá e pretendo nunca fazer isso. Ainda não tenho filhos, mas fui me acomodando. Por quanto podemos nos vender? Ter um apartamento em nosso nome, um carro, uma conta bancária recheada em troca de nossa ideologia? Não aconteceu isso porque "não me convidaram pra esta festa pobre".

O tempo foi passando, a idade avançando, o comodismo cutucando e de repente eu percebi que tenho o privilégio de me sentar em uma mesa ao lado de uma pessoa fiel às suas ideias sem se vender. Conversamos e lá aparecem os conceitos de tal pessoa brilhante que me faz repensar e voltar a ser aquela mesma cheia de vontades, com pensamentos contrários às opiniões dominantes. Sou a cada dia incentivada por minha colega que agora também possui um blog, e diga-se de passagem, um ótimo blog porque é de alguém que escreve muito bem: http://naoacreditoemhumanos.blogspot.com. Ela escreve aquilo que comentamos no dia-a-dia sobre essa nossa sociedade cheia de vícios e egoísta.

Ressurjo eu então com 17 anos, sentada na cadeira do dentista dizendo a ele, "está vendo? Não me vendi e não estou sozinha..."
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Mais uma vez

5.8.09



Torço para um time ganhador de tantos títulos que já perdi a conta. Isso não é arrogância, é uma crítica, qual é o objetivo de tantos torneios? Em 2008, o Inter participou de uma tal de Copa Dubai contra um time cujo nome tive que pesquisar no site oficial do clube: Inter de Milão. Opa, não é pouca coisa! E no entanto já havia me esquecido. São tantas competições que já nem me lembro dos adversários. E olhem que tenho ótima memória!

Agora foi a vez da Copa Suruga, nome que pode ser trocado facilmente por outra palavra caso o dedo esbarre em uma letra abaixo do "G" no teclado do computador. O Colorado participou porque venceu no ano passado a Copa Sul-Americana.

Com jogadores caindo mortos de cansados literalmente em campo por causa de tanto exercício físico, eu me pergunto, quando vão diminuir o número de jogos? O Inter competiu três torneios diferentes ao mesmo tempo este ano, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro e a Recopa. Perdeu duas, por enquanto. De que adianta jogar mil competições, cansar os jogadores e só levar a Copa Suruba, ops, Suruga que nem é reconhecida pela FIFA, assim como a tal Copa Toyota que os gremistas se vangloriam de terem ganho?

Mas esperem, puxem o fôlego que tem mais. Ainda esse ano, aguardem, juntamente com o Brasileirão, novamente a Sul-Americana.
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Nós e os gatos*

3.8.09



Somos quatro, dois humanos e dois gatos. Neko (gato em Japonês) foi o primeiro dos animais, chegou filhote, vindo da rua. A história resumida é a seguinte, Eugenio, um dos humanos, ouviu miados de madrugada no prédio. Desceu e viu o vigia noturno com um gato pequeno e orelhudo no colo. Disse: "vou colocar num saco e jogar no rio". Eugenio, por achar tal atitude estúpida e ignorante, tomou o bichano no colo, levou-o para casa, apresentou o lugar e perguntou para o gato se queria morar ali. Como não miou nem nada, concluiu-se, quem cala consente. Eu ainda não fazia parte do grupo dos quatro, que na época eram apenas dois, um homem e um gato.

Por isso, quando ia visitá-los, o gato, enciumado, me chamava de moça ao invés de mãe e muitas vezes me ignorava, indiferença que os gatos interpretam com perfeição. Quando o gato percebeu que a última visita havia transmutado em "morar aqui definitivamente", passou a me dar tapas na cabeça quando passava desprevenida em frente à geladeira onde montou sentinela com o intuito de se divertir dando patadas nas cabeças dos outros dois moradores, eu e Eugenio.

Em um começo de tarde de verão, um gato pequeno, branco e magro foi avistado por Eugenio e Neko quando passeavam. Decidimos adotar o gato, que na verdade era gata, sem consultar o terceiro integrante da casa. Por isso, Neko agiu furiosamente com arranhões e até mesmo rosnadas para a gata Bibiana. Disseram que se entenderiam logo e sete meses depois, ainda se estapeiam, quer dizer, o macho bate nela, situação essa que leva os dois humanos a intercederem pela mais fraca.

Por ser fêmea é menor. Neko às vezes sem motivo aparente sai de seu lugar só para dar patadas em Bibiana. Agora que somos em quatro, raramente nós humanos recebemos tapas na cabeça, pois seu alvo é Bibi. Neko tem também o costume de chegar perto dela quando está tentando tirar um cochilo e cheirá-la como um aviso de paz. Ela retribui o gesto também cheirando seu rosto quando inesperadamente a pata do gato acerta em cheio a fuça da gata.

Hoje vi algo inusitado. Neko começou a tossir, algo até comum aos gatos. Ficou com a cabeça baixa e como a tosse não cessava, Bibiana correu em direção ao "irmão" e começou a cheirar seu rosto, numa espécie de beijo. Não entendia o que estava acontecendo, Neko não a expulsou de seu canto, ficou ali parado, engolindo com certa dificuldade e Bibi ao seu lado, beijando-o, mesmo eles sendo na maioria do tempo inimigos. Depois que Neko melhorou e voltou a surrar a pobre gatinha percebi então o que havia acontecido, ela se preocupou com ele porque são iguais. Era uma comunicação entre felinos, inútil eu tentar decifrar. O que significava aquilo eu nunca vou saber. Ninguém mandou que eu me intrometesse na natureza. Se quiserem brigar, que briguem.

*Esse texto também está no novo blog: http://gatesco.blogspot.com/
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