
Faculdade, outra cidade, vida nova! Trotes, sempre nos enganando. Um palhaço lá na frente fingindo ser o professor, nos enchendo de matéria, nos assustando. A professora ali, sentada na minha frente, fingindo ser aluna, rindo sem parar. Não percebi, juro que não percebi. No lado de fora da sala, um veterano cretino subiu no ombro de um amigo e vi lá no alto da porta, onde havia uma janelinha surgir em batom vermelho "vão morrer". Ah, mas não tá morto quem peleia. E eu peleei.
Perguntavam, Britto ou Olívio? Sei lá, oras bolas, nem voto aqui. Britto ou Olívio? Agora gritavam. Mas criatura, lá no Paraná nem haverá segundo turno, a manezada votou em peso no Lerner. Não posso votar no Britto ou no Olívio, já votei lá no meu estado. Por que querem saber? Ai, vocês gaúchos, que coisa, chimango ou maragato, colorada ou gremista, Britto ou Olívio, por que tudo aqui é assim? Pronto, ganhei inimigos. Aquela gurizada toda era petista, quem ousasse falar no então candidato peemedebista, recebia no peito um adesivo do PT. Pior eu que não tomei partido nem por um, nem por outro. Quer dizer, tinha simpatia pelo candidato da esquerda, mas meus carrascos não ficaram sabendo.
Cheguei em Porto Alegre em ano eleitoral. Adorava as provocações na rua dos defensores do bigodudo e do ex-porta voz de Tancredo Neves:
– Britto vendeu o Rio Grande!
– Ah, então vota no bebum!
Faziam referência às privatizações que o candidato à reeleição realizava no estado e à fama do petista de gostar de beber. Eram assim e os gaúchos sempre precisaram de dois lados opostos. Discussões acaloradas, a garganta seca. Coca-Cola ou Pepsi? Ah, vai um chimarrão que nisso ninguém discute. Os gaúchos bebem mate quente até no verão. É apaziguador, uma boa prosa vem sempre acompanhada do velho amargo. Durante a reposição de aulas, em pleno mês de janeiro por causa da greve, meus colegas levavam cuia, bomba, erva, chimarrão e garrafa térmica. Passavam de mão em mão até chegar no professor que também bebericava. Se ao meu lado tivesse um veterano repetente, lembrava-me dos berros "Britto ou Olívio" e passava a cuia para outra pessoa. Falei que arranjei inimigos.
Um pouco antes da virada do milênio vi alguns colegas apostando no possível
bug do milênio e outros contrários. No inverno do ano seguinte, pensei que tudo seria normal, mas um grupo de estudantes batendo o queixo discutia se iria ou não nevar. Não agüentei, fui para casa me aquecer com chocolate quente. Eu é que não ia ficar congelando meus ossos na rua. Melhor era esperar pela possível neve dentro de casa. Para mim, não faria a menor diferença, com ou sem neve, o frio já era intenso.
Veio a neve. No mesmo ano, eleições municipais. Tarso ou Collares. Ai, socorro! Voltei para Curitiba. O frio também era forte, mas não havia discussões. Nem neve. Quietinhos, os eleitores de Taniguchi e Vanhoni caminhavam tranqüilamente sem provocações. Engoliram um resultado suspeito sem pedido de recontagem de votos. Aceitaram passivamente o aumento exagerado da tarifa de ônibus. Conformaram-se com mudanças absurdas. Ah, saudade do Rio Grande.
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