O sonho ou O que de fato somos, na infância estava guardado

18.3.11




“Professores há aos milhares. Mas o professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão, é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança”.

Rubem Alves

Às vezes, na infância, eu escrevia mentalmente. Eram reflexões, pareciam ser boas. Mas, ao tentar colocar no papel, tudo se evaporava. Nunca tive diário, creio que essas ideias seriam ótimas para preencher as páginas de um. A ausência de meus avós falecidos bem antes de meu nascimento ou o absurdo de ver crianças da minha idade na rua pedindo esmolas me entristeciam. Pensando hoje, talvez escrever me ajudasse a desabafar e exorcizar aqueles tormentos.

O colégio onde estudei durante o Ensino Fundamental de certa forma tolheu-me de seguir em frente com esse plano. Se não eram as inúmeras tarefas a me tomarem o tempo, eram as normas dos textos que me assassinavam as ideias. Narração, dissertação e descrição, com começo, meio e fim. E minhas impressões, onde se encaixavam? Elas não possuíam fim. Talvez nem começo, o que dirá meio...

Vejo hoje crianças felizes da vida de uniforme indo para a escola. Adoram a sala de aula, as atividades e os professores. Quando as aulas se tornarem menos interessantes, sem a liberdade de criação que os pequenos têm com papéis coloridos, tesouras e cola, também eles se desanimarão. Comigo ocorreu o oposto. Eu não gostava da escola no ensino básico. Via os adultos reclamarem aos domingos da música do Fantástico. Só de ouvir sentiam calafrios porque associavam ao dia seguinte, com início da semana e a volta ao trabalho. Pois eu ouvia a música dos Trapalhões, programa anterior ao Fantástico, e já me desesperava: amanhã é segunda, dia de aula. Não eram somente as normas, os professores também eram severos. Até demais. “Não olhem para o lado, fiquem quietos, não se mexam, façam a tarefa”. Tudo no imperativo.

Libertei-me no Ensino Médio, em outro colégio. Até mesmo uma professora fraca e insegura me deu um empurrãozinho sem saber. Eu detestava as aulas de redação. Mas, certo dia, escrevi um texto qualquer e creio ter deixado ali um traço de minhas reflexões. A professora percebeu e leu para a turma o texto que ela julgou o mais profundo. Eu, a aluna mediana, não esperava aquilo, porém foi naquele momento em que a vontade de escrever voltou. Se é bom ou não, a mim não importa, o que vale é o prazer de transformar pensamentos em algo concreto. O melhor professor não passa simplesmente bem a matéria, mas faz despertar no aluno aquilo de mais valioso que ele possui e não sabia estar ali em um cantinho da mente pronto para ser desvendado. Ou reprimido, depende do mestre.

Foram necessários vários professores do Ensino Fundamental para me coibir e somente uma aula do Ensino Médio para me redescobrir. Oito anos olhando para baixo e três anos seguintes convivendo com educadores maravilhosos com os quais tive a oportunidade de percorrer um caminho menos opressivo. É por isso que tenho um enorme carinho pelo colégio onde estudei dos 14 aos 17 anos e um apreço gigantesco pelos meus professores. Lá não havia uniforme para nos militarizar, lugar marcado ou carteiras enfileiradas. Havia um número reduzido de alunos nas turmas e o corpo docente trabalhava com mais facilidade. O contato entre aluno e professor virava amizade facilmente. E é lá onde quero também ser educadora para estimular e encorajar os estudantes.

Explicação do décimo terceiro item do post Meme.

5 comentários:

Prima Bi disse...

Como prima e fã, peço: continue escrevendo! Escreva sempre! Amo suas ideias e eu jeito de expo-las!

E eu entendi errado ou você vai dar aulas no Fenix??

Beijos

Luiza Prestes Karam disse...

Como diz o professor Minhoco, personagem criado pelo Eugenio, nã, nã, nã, nã, não! É só um sonho. Obrigada pela visita, prima!

Eugenio Hoch Junior disse...

Você é uma das pouquíssimas pessoas que conheço que é insistente o bastante, digo, ao limite do absurdo, de correr atrás do que gosta até conseguir.
É só um sonho dar aulas no Fênix?
Então pare de dormir até o meio-dia e vá atrás do que você gosta.
Bjs

Elias Karam disse...

Excelente texto, maninha!

Miuxapop disse...

Quero ser aluna da professora Naluiza! <3