Cartão de crédito é mesmo uma navalha

29.11.08



Não uso cartão de crédito. Explicar isso ao vendedor ou ao chato do telemarketing que insiste em empurrar um cartão é sempre necessário. Não basta apenas dizer que não utilizo, tenho que argumentar o porquê de tal sacrilégio. Não sou rica para pagar tudo à vista, apenas compro coisas baratas e quando quero algo mais caro, espero alguns meses e quebro meu porquinho.

Existe diferença entre comum e normal. É comum as pessoas terem e abusarem de cartões de crédito. Mas, para mim, isso não é normal. Ficar jogando a dívida para o próximo mês não é comigo. Parcelar e pagar em sei lá quantas vezes criando uma bola de neve é um vício. E como tentam me seduzir com promessas de ausência de anuidade. Ainda querem saber as razões. Acham que consigo convencer? Até imagino a cara do teleatendente no outro lado da linha com um baita ponto de interrogação sobre a cabeça.

Quando faço compras e pergunto se há desconto para pagamento à vista, o vendedor vai logo falando que não, mas dá para parcelar em tantas vezes. Eu deveria receber um prêmio, no caso um desconto, por pagar tudo na hora. Porém, não é o que ocorre. Sei perfeitamente que os juros já estão embutidos no valor, caso contrário, por que o preço é exatamente o mesmo a prazo e à vista?

Começo a me sentir uma alienígena no meio das pessoas que reclamam das parcelas que têm de pagar todos os meses do cartão de crédito. E ainda querem me colocar nessa fria.
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Match Point para Rede Globo

26.11.08



Nas quartas-feiras quando eu, você, enfim, nós queríamos assistir aos jogos do Brasileirão, a Rede Globo transmitia partidas da Copa Sul-Americana. Pois bem, agora que estamos no primeiro jogo da final deste campeonato, eis que a Vênus não tão platinada assim resolve nos agraciar com o filme Match Point no Cinema Especial. Isso era de se esperar se um dos times não fosse um brasileiro, no caso, o Internacional.

Sim, é meu time e se fosse outro, exceto do eixo Rio-São Paulo, estaria também fazendo a defesa. Na música, como muitos dizem, "chato não era Raul Seixas e sim seus fãs", as pessoas acabam confundindo e odiando o compositor cada vez que alguém grita "toca Raul". Já no futebol, a mídia faz o mesmo quando só enfatiza os clubes paulistas e cariocas. Nada tenho contra os dois estados mais destacados do Sudeste, mas outras pessoas dos demais estados misturam as coisas e passam a detestar esses pólos e o povo de lá, como podemos observar nos comentários feitos por leitores do blog do Juca Kfouri.

O futebol é apenas um exemplo, já citado aqui. Certos acontecimentos que ocorrem no Rio de Janeiro ou em São Paulo viram notícia amplamente divulgada pela grande imprensa. Se algum fato semelhante desponta no "interior" do Brasil, é como se não tivesse acontecido. É só observar a música Notícias do Brasil de Milton Nascimento e Fernando Brant e perceber, a mídia não mudou em nada e "ficar de frente para o mar, de costas para o Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país".

Em tempo, Band transmitirá hoje, às 22 horas o jogo Estudiantes e Internacional.

Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)
Milton Nascimento e Fernando Brant

Uma notícia está chegando lá do Maranhão
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Veio no vento que soprava lá no litoral
De Fortaleza, de Recife e de Natal

A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus,
João Pessoa, Teresina e Aracaju
E lá do norte foi descendo pro Brasil central
Chegou em Minas, já bateu bem lá no sul

Aqui vive um povo que merece mais respeito,
sabe?
E belo é o povo como é belo todo amor
Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar

O canto mais belo será sempre mais sincero,
sabe?
E tudo quanto é belo será sempre de espantar
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
Ser mais sábio que quem o quer governar

A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul

Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país
Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar, de costas para o Brasil
Não vai fazer desse lugar um bom país
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Quintana e meus amigos

25.11.08
Licença para colocar foto ao invés de desenho.


Do lado de fora

Se Porto Alegre possui a Casa de Cultura Mario Quintana, Curitiba homenageia o poeta com o Quintana Café e Restaurante. Claro, guardadas as devidas proporções, mesmo porque a Casa de Cultura era o Hotel Majestic e lá cabem mais espaços como cinema, biblioteca, museu, teatro, restaurantes, oficinas, exposições, e o que mais eu estiver esquecendo, ah, sim, o fantasma do próprio Quintana.

Apesar do Quintana Café ser um restaurante, com temperos deliciosos, também conta com uma biblioteca de alta qualidade. O visitante/leitor pode fazer empréstimo das obras. A biblioteca recebe várias novidades a cada mês.

Melhor do que comer bem e ver as paredes e cardápios cobertos de poemas de Mario Quintana é estar bem acompanhada. Eu, Lili, minha prima gaúcha, seus amigos, e agora também meus, Marco Aurélio de São Paulo e a catarinense Joana, demos boas risadas. Quando todos já estavam sentados, comentei que em nossa mesa cada um representava um estado brasileiro diferente. Prontamente, Rogério Moreira, garçom que nos serviu, chegou perto, levantou o dedo como um aluno que pede a vez e disse: "eu sou da Bahia". Estava feita a mistura com sotaque e regionalismo particulares.

Só em visitar o site já dá para perceber a sofisticação do lugar. Quem vier a Curitiba, não se arrependerá em conhecer o local.


O único que pode fumar no recinto
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Nada acontece na Ipiranga com a Erico Verissimo

18.11.08



Deu pra ti é uma expressão gaúcha e significa "chega", "acabou", "vá embora". No final de 1979, Nei Lisboa e Augusto Licks montaram um show chamado Deu pra ti, anos 70, uma espécie de adeus à ditadura. Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti foram os responsáveis pela produção do evento e mais tarde transformaram a idéia em filme com o mesmo título. Em 1982, Kleiton e Kledir compuseram Deu pra ti, música cujo refrão é conhecido por muitos, "Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau". Outro trecho diz "Que saudade da Redenção, do Fogaça e do Falcão". Redenção é o Parque Farroupilha, José Fogaça, político e compositor e Falcão foi grande ídolo da torcida colorada, três vezes campeão brasileiro pelo Internacional na década de 1970.

Pois os irmãos devem ter se arrependido da homenagem a Fogaça, atual prefeito de Porto Alegre pelo PMDB. Quem vai à cidade hoje se espanta. Os mendigos estão espalhados pelas calçadas sem nenhuma perspectiva. A prefeitura atual fechou com muros a parte inferior de algumas pontes da Avenida Ipiranga. Nesses locais, mendigos e moradores de rua deixavam seus pertences para, durante o dia, fazerem pequenos trabalhos já que oportunidade de emprego não têm. O mais interessante é que a primeira ponte a ser fechada foi a da esquina da Avenida Ipiranga com a Rua Erico Verissimo, justamente próximo ao prédio do Jornal Zero Hora, defensor da elite e da política do prefeito.

Fogaça, defensor das Diretas Já! e da Constituinte mudou. Agora os mais pobres são tratados a pontapé pela polícia para não permanecerem nos locais por onde passa a classe média porto-alegrense. Nem mesmo embaixo da ponte é lugar garantido para os que não possuem moradia, afinal, foram expulsos de lá. Fogaça que um dia compôs Vento Negro: "Não creio em paz sem divisão", com uma letra bonita para ser cantada, mas nunca colocada em prática, ao menos não por seu compositor.
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Futebol III

2.11.08

Sempre quando alguém pergunta se já fui ao estádio ver uma partida de futebol, me lembro do jogo Atlético-PR 4 X 0 Ponte Preta. Não sei precisar o ano, era criança, uma noite fria e até minha mãe, torcedora do Inter, estava junto. Só não estava presente meu irmão mais velho por ser coxa branca. Não posso dizer que era 100% atleticana, naquela idade a única coisa que me chamava a atenção no meio de bandeiras e fogos era o vendedor de pipoca e picolé.

Não me importavam a escalação, o time adversário, o árbitro e o resultado. Só queria comer os doces. Tentava até me interessar, mas pela minha baixa estatura de criança, nunca conseguia ver os gols porque sempre que o time armava uma jogada que levasse a bola ao ataque, os torcedores se levantavam eufóricos para ver o lance de pé. Não via mais a bola nem o campo, só bundas na minha frente. Meu pai até me levantava no colo, mas só via a comemoração dos jogadores em campo.

Por isso, torcia para que saísse um gol inesperado, um chute do goleiro e a bola sem querer atravessasse o campo e goooooooool!!!!! Pronto, eu teria visto a bola dentro da rede sem marmanjos tampando minha visão. Como isso nunca aconteceu, ver o jogo não me despertava interesse.

Encontrava outras coisas curiosas. Achava engraçado quando o jogador dava chutões na bola e o som chegava bem depois aos meus ouvidos, numa falta de sincronia absurda, pensava eu. Era ao vivo, como podia acontecer aquilo? Mais tarde as aulas de Física me esclareceram sobre a velocidade do som ser muito inferior à da luz. Na época, que sentido faria saber dos 340 m/s? Bom mesmo era lambuzar os dedos com pipoca doce.
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