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Educação com muito amor

1.6.11

Ilustração da capa: Jefferson Rodrigues Oncken da Silveira

No ônibus, numa tarde qualquer de 2010, Eugenio sentou-se ao lado de uma simpática passageira. Ela perguntou como fazia para chegar em determinado lugar e dali nasceu amizade e principalmente admiração. Eugenio mandou uma mensagem para mim dizendo ter conhecido uma pessoa maravilhosa chamada Anecy Oncken, educadora e escritora.

A partir de então começamos a acompanhá-la pelo seu blog: http://anecyoncken.blogspot.com/ . Ali, ela conta suas experiências e vivências em família e em uma comunidade onde leciona em Morretes, cidade histórica do litoral paranaense.

Anecy enviou-nos convite para participarmos da sessão de autógrafos realizada em Morretes no começo de maio. Eugenio foi juntamente com minha sogra Sandra. Chegando lá, Anecy estava rodeada por seus pequenos alunos. Alguns deles estão descritos nas páginas de A borboletazul - relatos de uma professora rural, da All Print Editora. O título do livro se refere a uma história que Anecy criou para seus alunos sobre a borboleta azul que espalha o pozinho do amor por onde passa.

No livro, a professora conta diversas histórias encantadoras como a de um aluno que no dia das mães lhe presenteou com um chuchu envolvido em um laço vermelho, única coisa que ele tinha para oferecer. "Naquele dia, não só aprendi sobre a cultura do chuchu, como também a reconhecer o grande carinho do aluno em me presentear com o que ele tinha de mais valor: um chuchu!"

Outro episódio marcante é narrado por Anecy sobre o motorista do ônibus escolar, Sr. Gil, já falecido e de como sua morte foi sentida pela comunidade porque ele também, assim como Anecy, dava bastante valor aos alunos. "Agora seu Gil está lá no céu, talvez transportando os anjos de Deus, e nós, aqui, transportamos para o céu sentimentos de gratidão, lamentos e saudades, muitas saudades!"

Há histórias mágicas como o boi da cara preta que sempre salvava o caçula de determinada família em situações de perigo, mesmo quando cantavam para ele a música que Dorival Caymmi fez para sua filha Nana: "boi, boi, boi, boi da cara preta, leva essa menina que tem medo de careta".

Fala também das dificuldades das crianças e de suas famílias, coisas que nós, da cidade grande, com mordomias e confortos não conseguimos imaginar ou sequer explicar como existem pessoas vivendo na miséria e dos reflexos que ela imprime nas crianças. Muitas moram com a família, mas sem nenhum afeto ou atenção.

Todos os caminhos percorridos por Anecy e pessoas que conheceu durante esse trajeto descritos no livro fazem com que visualizemos todas as histórias. Parece até que estamos ali presentes, ao lado dela e de seus pequenos amigos.

Anecy tem consciência de que não conseguirá mudar o mundo, mas como disse, tenta ajudar seus alunos a mudarem seu mundo interior. Isso é uma lição para os professores que muitas vezes se desanimam e pensam em desistir da educação. Sabemos das dificuldades, o caminho é árduo, temos falta de incentivo, o governo faz pouco caso da educação, mas é preciso erguer a cabeça sempre, e tratar a todos com muito amor. É como a frase de Coelho Neto que ela escreveu na dedicatória do meu exemplar: "a educação pelo medo deforma a alma".


Noite de autógrafos e bate-papo do livro A Borboletazul, em Curitiba:

Local - Salão Frank d`Ferran - Shopping Novo Batel - Piso D - Curitiba
Data - 28/06/2011 (terça-feira), às 19h30

Reportagem sobre o trabalho de Anecy
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Assim como Vinícius

19.8.09
Havia algum tempo já separado alguns objetos depois daquelas mega-arrumações que todos nós fazemos, isso vai ali, esse é pra jogar fora, aquele livro é presente para o Zeca, aquele xerox tenho que devolver a Lígia e esses são os próximos livros que pretendo ler, dentre eles, Budapeste, de Chico Buarque.

O livro, presente de minha amiga Luciana, me aguardava há seis anos. Não é preguiça de ler, é desconfiança. Quer dizer, era. Sempre fico com uma pulga atrás da orelha quando alguém se aventura por outras áreas, mesmo sendo o Cara. De Chico, havia lido Estorvo, mas na época lia pensando em acabar logo, chegar à última página rapidamente, prestar atenção somente na história, sem me dar conta do estilo, da poesia na prosa, do uso perfeito de determinada palavra dentro daquela frase. Como pude desconfiar de Chico, sendo que ele faz letras e melodias maravilhosas?

Por ser escrito em primeira pessoa, pequei em imaginar no personagem o próprio Chico. Mas, para quem compôs Partido Alto, "Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio, pele e osso simplesmente", sendo o oposto, deveria dar ao personagem outra cara.

Estava sem rumo, as aulas adiadas para evitar contaminação de gripe, um restinho de férias do trabalho e não podia adiar mais. O livro e o xerox foram entregues prontamente, mas Budapeste me encarava, "e aí, vai ler ou não vai"? Sim, vou, seria muita desfeita com um presente ganho por amiga tão querida. Comecei em uma noite. Já gostei de primeira página. Não conseguia desgrudar os olhos. Desta vez, consegui distinguir Chico do personagem principal. Na cozinha os gatos miavam de fome, seus potes de ração vazios, "só mais esse capítulo", dizia, mas não me entendiam, queriam comida.

Dei pausa na leitura e percebi que também estava com fome. Deixei para o dia seguinte a continuação. Ao finalizar a obra, tive que dar o braço a torcer, Chico é gênio e tudo que toca se transforma em ouro. Ainda me faltam Benjamin e Leite Derramado, este último, dei de presente a minha mãe que me disse, "é maravilhoso, mas estou lendo aos poucos para não acabar logo". Se fosse eu, lia tudo de uma vez e se achasse ótimo, recomeçaria de novo. Chico fez o caminho inverso de Vinícius de Moraes, da música para a Literatura. Ambos brilhantes.
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Admiração

4.10.08



Na faculdade, em 2002, Zeca, professor já citado neste blog, durante aulas de História da Arte pediu que os alunos fizessem entrevista com algum artista plástico de Curitiba. Ele deu uma lista de pessoas e uma pequena biografia de cada um. Como não entendo de artes plásticas, escolhi Carlos Dala Stella porque, dentre outros trabalhos, fez as capas dos livros de Cristóvão Tezza, escritor cuja literatura aprecio muito. Carlos me concedeu entrevista por telefone e falou sobre seu último trabalho, um livro com imagens de diferenciadas bicicletas que encontrou pelas ruas quando esteve no Canadá. Comentou que fotografia sempre fascinava as pessoas, inclusive informou-me que Tezza estava prestes a lançar um livro com o título "O fotógrafo".

No ano seguinte, trabalhei em uma locadora de vídeo. Estava guardando alguns filmes, quando no balcão de cadastro de novos clientes Tezza preenchia sua ficha. Não me contive e exclamei alegremente, "Cristóvão Tezza!!" Vi pela sua cara que procurava em sua cabeça um arquivo mental "quem será essa louca? De onde a conheço"? Enquanto ele pensava eu também matutava, "como me apresentarei, sou uma fã maluca que adora seus livros ou, uma vez falei com você por telefone porque o Charles Kiefer pediu para eu fazer um convite para você ir a Porto Alegre e participar da Feira do Livro ou, sou filha do Elias Karam, seu colega de universidade e de greves". Optei pela última.

Alívio, deve ter pensado ele. É muito ruim quando tentamos cavacar na mente o rosto de uma pessoa que conhecemos, mas não sabemos de onde. Não gosto de ficar tietando ninguém. Ele escolheu um filme e fui fazer a locação. Meio constrangida com o silêncio, resolvi abrir a boca:

- Você está escrevendo um livro sobre um fotógrafo, não é?

E ele me respondeu meio surpreso:

- Você está bem informada, não é?

De fã chata passei a jornalista intrometida. Expliquei sobre a entrevista com seu amigo Carlos. Senti-me sem chão. Ninguém mandou eu ser tão atrevida, mostrar que tinha conhecimento. Idiota, burra, estúpida, pensei.

Quatro anos depois, fui com meu pai no lançamento de seu último livro "O filho eterno". Na fila, quando chegou nossa vez, Tezza abraçou o amigo, feliz pelo reencontro. Meu pai me segurou no braço e disse:

- Esta é minha filha, grande admiradora de suas obras.

Tezza não me reconheceu. Ainda bem porque dessa vez apenas apertei sua mão, nada de constrangimentos. Apenas dois curitibanos silenciosos, como quase todos os outros. Mas se tiver a oportunidade de reencontrá-lo, o parabenizarei pelo prêmio Jabuti deste ano e direi que, assim como seu personagem Trapo acusava irracionalmente Fernando Pessoa de roubar seus poemas, eu também passo pelo mesmo problema ao ver minhas idéias em suas crônicas antes que eu as coloque neste blog. Sempre que penso em um tema para escrever aqui, leio a coluna de Tezza no jornal às terças-feiras e me deparo com o mesmo assunto. Claro, ele escreve mil vezes melhor. E fico injuriada de não ter escrito antes porque não conseguia encontar a melhor forma de me expressar com clareza.

Paciência, o negócio é continuar lendo e admirando: Ser escritor
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Dádiva especial

11.4.08

Quarta-feira, 11 de abril do último ano da década de 1970. Foi o dia em que eu apareci no mundo, mas sem samba e batucada. Sou da década da Vila Sésamo, Abba, TV a cores, Pula Pirata e fim do AI-5. Foi a década em que o Internacional venceu três campeonatos brasileiros. Há exatos 20 anos, no dia em que completei nove anos, beijei o chão ao cair do meu presente, o Pogo Bol. Um pouco de manha, com cara de gato de botas do Shrek, pedi a minha mãe para faltar a aula. Ela sentiu pena e atendeu ao meu pedido. Fui com ela e seus alunos visitar a Biblioteca Pública.

Inesquecível, além de conhecer as seções da Biblioteca, encantei-me com um espaço onde os livros, de tão velhos, não podem ser tocados para não se esfacelarem. Certamente naquele 11 de abril, aprendi muito mais do que as tensas aulas da professora Alisson na 3ª série D. Foi um presentão e tudo isso por causa do meu brinquedo amarelo e laranja.

Há males que vem para bem. Cair de boca pode trazer benefícios. Desde então, costumo fazer empréstimos de livros, inclusive infantis para eu mesma ler. Às vezes, entro lá só para passear, ver exposição de fotos, pegar o jornal Rascunho, dar uma olhada na programação cultural da Biblioteca ou somente observar os leitores. Deixar de ir à aula naquele dia foi um dos melhores presentes que ganhei.
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Bah, guria, olha a fila

12.1.08

Kledir Ramil, meu grande companheiro de fila em bancos! Das poucas vezes que visito Itaú, Caixa, Bradesco e HSBC – a Internet veio nos facilitar a vida, mas há coisas que só podemos fazer pessoalmente – carrego comigo "Tipo Assim", livro escrito pela metade da dupla Kleiton e Kledir. Não são sertanejos, são aqueles gaúchos que cantam "Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau". Kledir (ou Kleidir como Evandro Mesquita o chama) é o magrão que não usa óculos. São bem escritas e engraçadas as crônicas desse vegetariano. Onde já se viu gaúcho não comer carne?

Meu livro (deixa eu me achar um pouco) possui uma dedicatória assim: "Luiza, meio gaúcha, meio curitibana, tipo assim, tudo de bom. Um baita beijo, Kledir". Ok, já nem lembro mais o que disse a ele. Provavelmente minha amiga que estava também acompanhando o lançamento do livro disse a ele que eu era colorada, já havia morado na sua querência amada e hoje estava aqui na terra do leite quente. Ele, também como bom colorado ("e a galera no Beira Rio") deve ter captado que eu amo o Rio Grande e escreveu aquilo.

Já curtia um monte a música dele e não levo o MP3 ao banco para ouvir o caixa me chamar, mas não adianta. Distraio-me lendo "Tipo Assim". Quando percebo estou com um sorrisinho bobo no rosto de algo que li e o funcionário e as pessoas da fila me olham impacientes. É Kledir, você às vezes me faz passar vergonha.
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Livros e livraria

27.12.07
Em 2002, comecei a trabalhar, um pouco antes do Natal, em uma livraria em Curitiba. A moça do caixa ia sair de férias e colocaram-me em seu lugar. Depois da agitação do final do ano, em janeiro, mês mais calmo, tive tempo de ler enquanto nenhum cliente passava pelo caixa.

Li "O canto dos malditos" de Austregésilo Carrano, baseado em fato verídico. Constantemente tinha eu de esconder o livro porque um dos personagens do livro, que era execrado em suas páginas, freqüentava sempre a livraria.

Assíduo também era Sr.José, assim chamado pelos funcionários da loja e pelos proprietários de um restaurante próximo para não ser reconhecido o renomado escritor avesso a fotografias, tietagens e imprensa. Finalmente pude ver o rosto de Dalton Trevisan. As únicas fotos que vi, ele estava de costas. E por fim entendi o grande número de livros seus que havia nas prateleiras. Ele nunca passou pelo caixa, pois nunca comprou nada. Levava seus exemplares para serem trocados por outros. Grande sábio, e o dono do estabelecimento o bajulava sem parar. Interessante outro funcionário que o atormentava e no final de tudo, quem mereceu uma dedicatória no livro foi uma atendente simples, que não babava em cima do escritor.

Fiquei por lá somente um mês, pois não gostava de ficar no caixa e sim pela livraria comentando obras com os clientes. Além disso, era difícil lidar com o chefe e todas suas manias. Por onde eu passava, tinha vontade de parar e ficar lendo, lendo e lendo. Não ia mesmo dar certo.
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