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Simples assim

16.5.09


Na minha infância, eu literalmente cantava no chuveiro. Minha mãe dizia que eu era afinada. Se me perguntassem o que queria ser quando crescesse, diria, “quero ser cantora”. Era brega, cantava sem parar O amor e o poder, “como uma deusa você me mantéééém”. Iniciei aula de violão, mas tinha vergonha de cantar. Também deixei de cantar no banho.

Um gato arisco que só ficava próximo a seus donos vinha no meu colo. Isso era motivo para me apontarem o curso de Veterinária. Fui conhecer a Sociedade Protetora dos Animais e chorei durante uma semana inteira só de me lembrar dos bichinhos debilitados.

Depois, eu fazia palhaçadas, inventava coisas e meus amigos diziam para eu virar atriz. Fiz curso de teatro durante um ano. O mais legal era sair depois da aula com o grupo e com o professor para jogar conversa fora. Nenhuma peça foi apresentada porque na aula só havia bagunça.

No vestibular optei por Jornalismo porque um teste vocacional revelou ser a área de Humanas a melhor para mim. Diploma na mão, nenhuma perspectiva, deixei de procurar por algo que no fundo não gostava.

Resolvi me dedicar ao blog. Tomei gosto pela escrita porque ninguém decidiu isso por mim. Às vezes crio textos mentalmente. Quando consigo um pouco de tempo para escrever aqui, as ideias já se perderam. Ou na hora de escrever não fica tão bom quanto eu esperava. Puxa vida, mas na minha cabeça havia ficado tão legal... Mesmo assim, sinto-me feliz quando clico no botão publicar postagem mesmo que cinco segundos depois eu passe a odiar o texto. Desenvolvi um certo carinho pelo Blogocular. Fiz muitos amigos por causa dele. E gostei.
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Dia do jornalista

7.4.09



O nome do curso escrito no livrinho de disciplinas ofertadas pela faculdade. Somente os aprovados o receberam. Uma das 40 vagas era minha. Via televisão, lia revista, participava de uma conversa, mas não prestava atenção em nada. A cabeça ia longe. Quando meu devaneio parecia irreal, olhava de novo para o livrinho para me certificar, não era um sonho. Fitava admirada a capa, lá estava a palavra: Jornalismo.

Não era só eu quem ficava maravilhada com a profissão, todos olhavam com orgulho quando respondia o que ia tentar no vestibular. Jornalismo era um fascínio, ainda mais em minha cidade onde apenas PUC e Federal possuíam o curso.

Havia um romantismo na profissão. Hoje é tudo diferente, os recém-formados procuram outras profissões porque o ex-ministro Paulo Renato Souza, do governo Fernando Henrique Cardoso, autorizou o funcionamento de vários cursos de Comunicação, em um mercado de trabalho defasado. Nos ônibus e nas ruas passou a ser vulgar alguém carregar uma bolsa ou mochila com o nome do curso.

Onze anos depois de minha entrada para a universidade, há pelo menos dez novos cursos de Jornalismo em Curitiba e sabe se lá se neste exato momento em algum bairro não está sendo criada uma nova faculdade com o curso. Além das duas já citadas, possuem o curso, Tuiuti, com autorização em 1997 e 200 vagas anuais, Opet e Essei desde 2000, Unibrasil (2001, 150 vagas), Uniandrade (2003, 100 vagas), Facinter (2006), Unicenp e UniCuritiba (2009).

Enquanto milhares de formados procuram em vão um lugar ao sol, Paulo Renato Souza está tranquilamente sentado em sua cadeira no Congresso em Brasília. O criador do Provão e do ENEM ainda dita regras juntamente com seus 513 colegas na Câmara dos Deputados.
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O mestre

31.7.08



Minha vida acadêmica se iniciou em uma Universidade Federal. Com o retorno à minha cidade natal, transferi meu curso para uma faculdade particular. Na primeira aula à noite, levei junto todo pessimismo causado por preconceito que sentia por cursos superiores pagos. Não esperava nada dos colegas e professores. As alunas andavam bem vestidas, de salto, maquiadas e cabelos penteados sem um fio fora do lugar. Sentei-me próxima à porta, na primeira mesa grudada à parede para ter o menor contato possível. Só haveria gente atrás e do lado esquerdo. A frente e a direita estavam protegidas.

Depois de alguns minutos, observei com mais atenção que algumas colegas trajavam uniformes. Outras falavam sobre o trabalho. Percebi que muitas usavam certas roupas por causa do emprego e não porque gostavam de ostentar qualquer posição social. Senti-me mal por criticá-las mentalmente, ainda mais que algumas vieram puxar papo.

O professor entrou na sala, deu boa noite, explicou o que seriam suas aulas naquele semestre e começou a aula. Concentrada, vi que o professor possuía muito conhecimento e sabia muito bem como conduzir a aula. Mas, ainda me perseguia um certo ceticismo e não pude dar o braço a torcer duas vezes naquela noite. Deixei a decisão para a segunda aula.

Esse mesmo professor lecionava outra cadeira para aquela turma. A aula foi tão maravilhosa quanto à primeira. Com o tempo, descobri que, além de ótimo mestre é também uma pessoa atenciosa e tranqüila. Sabe o nome de todos os alunos e ex-alunos. Ensina, no caso do curso de Jornalismo, não só a escrever, mas a procurarmos o lado humano da notícia e faz com que nos surpreendamos ao constatar que ela é mais interessante quando vem de pessoas mais simples.

Não é novidade para quem o conhece. Também não é à toa que é homenageado em quase todas as formaturas do curso de Jornalismo da PUC-PR. José Carlos Fernandes, digo, Zeca, como ele mesmo se apresenta, íntimo, em cada nova turma, é assim, grande amigo dos estudantes e professores. Quando por acaso encontro algum aluno de Comunicação da PUC, pergunto: “tem aula com o Zeca?” e logo a pessoa modifica a expressão facial sempre acompanhada de um sorrisão e fala: “Ah, o Zeca é o máximo”! E completa: "ele será o nome de turma da minha sala".
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Diploma

7.7.08



Não terás profissão alguma. Esse foi o título dado para a campanha criada pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). A referência foi tirada do título do livro de Inácio de Loyola Brandão, “Não verás país algum”. A Fenaj está preocupada porque o Supremo Tribunal Federal está para votar recurso sobre a não obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão.

Qual é a real necessidade do diploma no caso dos jornalistas, se os melhores do país que já ocuparam redações não eram formados na área, assim como Loyola Brandão, repórter e escritor? Basicamente, são requisitos necessários para a profissão, ética e domínio da Língua Portuguesa. O resto se aprende na prática. A credibilidade se conquista com os anos, podendo se perder em uma única matéria. Os contatos se fazem no trabalho.

Concordo que o jornalista deva ter um curso superior, mas não especificamente o de Jornalismo. As disciplinas do curso são um apanhado de várias outras áreas, História, Lingüística, Direito, Psicologia, Administração, entre outras, como Literatura, para fazer títulos criativos como o da campanha.

Quem sai perdendo? As faculdades, as milhares que se procriaram graças a ajuda de Fernando Henrique Cardoso e seu fiel escudeiro, o ex-ministro da Educação e atual deputado federal, Paulo Renato Souza. O que será dessas faculdades e universidades privadas? Como se sustentarão? Claro que o Supremo votará a favor do diploma. Os onze ministros sofrerão muita pressão. Afinal, quem a federação representa, os profissionais ou os donos de instituições de ensino? Precisa responder?
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Bichos sujos

17.1.08

Dez anos se passaram. Lembro como se fosse hoje, eu em Curitiba, o resultado em Porto Alegre. Internet nem pensar, na época não sabia nem segurar um mouse, aliás, não sabia para que servia tal dispositivo. O jeito foi telefonar para os cursinhos gaúchos. Ocupado. Redial. Ocupado. Foi essa tortura durante uma meia hora. O medo aumentou quando o telefone começou a chamar. A voz do outro lado perguntou meu nome e "aprovada", disse ela. Choros, abraços, tontura e a dúvida. Será mesmo? Eita São Tomé. Ligação novamente. Sim, estava certo, eu era uma caloura.

Alguns anos antes do meu vestibular, havia uma propaganda de um famoso cursinho que dizia o seguinte: "passar no vestibular é um grande desafio. Por isso, não estranhe essa gente que não sabe se ri ou se chora, amanhã pode ser você". Sou manteiga derretida, chorei no final de "Monstros S.A.", é óbvio que chorei vendo esse comercial, mesmo achando um pouco brega. Está bem, eu me emociono até hoje só de lembrar. Quando passei no vestibular, veio isso na minha cabeça. "Amanhã pode ser você", sim, eu queria aquilo mais do que qualquer outra coisa e havia chegado o dia.

Mês de janeiro é assim, um bando de jovens enlameados com a cara suja de tinta gritam pela cidade. Acho divertido, ao contrário de outros. Só quem não passou por isso reclama, chamam-nos de ridículos, mas passar no vestibular em uma universidade pública é uma grande conquista pessoal. Os pais ajudam, pagam os estudos, incentivam, mas na hora do concurso é o estudante e a prova, nada mais. Como posso achar ruim, dizer que são uns exagerados se na época foi para mim a melhor coisa do mundo? Se falam, "aí, tia, estou na Federal", vou logo dando parabéns e perguntando qual é o curso. Bato um papo e depois reclamo de terem me chamado de tia. Calma aí, não cheguei ainda aos trinta, estou quase lá. Despeço-me, vou para casa de ônibus e eles a pé. São proibidos de subir em coletivos daquele jeito. Mas não ligam e saem pulando e cantando pelas ruas irritando os mal-humorados.
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Livros e livraria

27.12.07
Em 2002, comecei a trabalhar, um pouco antes do Natal, em uma livraria em Curitiba. A moça do caixa ia sair de férias e colocaram-me em seu lugar. Depois da agitação do final do ano, em janeiro, mês mais calmo, tive tempo de ler enquanto nenhum cliente passava pelo caixa.

Li "O canto dos malditos" de Austregésilo Carrano, baseado em fato verídico. Constantemente tinha eu de esconder o livro porque um dos personagens do livro, que era execrado em suas páginas, freqüentava sempre a livraria.

Assíduo também era Sr.José, assim chamado pelos funcionários da loja e pelos proprietários de um restaurante próximo para não ser reconhecido o renomado escritor avesso a fotografias, tietagens e imprensa. Finalmente pude ver o rosto de Dalton Trevisan. As únicas fotos que vi, ele estava de costas. E por fim entendi o grande número de livros seus que havia nas prateleiras. Ele nunca passou pelo caixa, pois nunca comprou nada. Levava seus exemplares para serem trocados por outros. Grande sábio, e o dono do estabelecimento o bajulava sem parar. Interessante outro funcionário que o atormentava e no final de tudo, quem mereceu uma dedicatória no livro foi uma atendente simples, que não babava em cima do escritor.

Fiquei por lá somente um mês, pois não gostava de ficar no caixa e sim pela livraria comentando obras com os clientes. Além disso, era difícil lidar com o chefe e todas suas manias. Por onde eu passava, tinha vontade de parar e ficar lendo, lendo e lendo. Não ia mesmo dar certo.
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