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Bom gosto

31.7.09



Eu sou assim, meio desafinada, próximo ao Dia da Mães, escrevo sobre pais e agora com a aproximação de agosto, escrevo sobre as mães.

Quando era criança, fazia como toda menina faz, colocava os sapatos de minha mãe. Pensava, nunca vou chegar a ter pés compridos como os dela. Mal sabia eu que calçar 33 é na verdade ter pés pequenos. Isso sempre foi uma dificuldade para minha mãe, porque encontrar calçados com seu número sempre foi difícil. Até de loja infantil já virou cliente. É muito engraçado, de vez em quando, essas lojas entram em promoção e as funcionárias ligam para ela e a convidam, "traga seus filhos, vai ter cama-elástica, pipoca, palhaço..." Mal sabem que na verdade ela é a cliente e seu filho passou dos trinta e já tem filha!

Meus pés já passaram do tamanho dos pés dela, dois números acima e, por isso não posso usar nada seu nos pés. Quando me atrevo a colocar algum sapato, insistindo que não vou criar calos, ela brinca, "ah, não, tira já, vai alargar meus sapatos com esses pés enormes". Grandes só se forem pertos do dela, daqui a pouco até a neta de um ano estará calçando mais.

Cresci, mas não muito. Passei só alguns centímetros da altura de minha mãe e foi bom porque comecei a dividir as roupas com ela. Quer dizer, eu na verdade assaltava seu guarda-roupa. Sempre fui elogiada quando usava algo seu. Às vezes, mesmo quando a roupa era minha, alguém gostava e logo emendava, "é de sua mãe, não é"? Baita elogio!

Uma amiga uma vez achou muito bonita a blusa que eu vestia e eu também gostei da roupa dela. Constatamos que ambas usavam as roupas das mães. Uma terceira entrou na conversa e confirmou, "roupa de mãe é sempre melhor".

No inverno, então, é ótimo. Aquele frio horroroso, batemos o queixo, ficamos encolhidas, esfregamos as mãos para nos aquecer e a blusa ou o casaco da mãe nos dá um amparo, uma segurança. Sim, porque com a roupa dela estamos mais bonitas, e assim, nos sentimos mais firmes, como se ela própria estivesse o tempo todo a nos abraçar.
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Memórias de família*

20.6.09


Existem certas histórias de família que se perdem para sempre. As pessoas envolvidas morrem e alguns momentos são enterrados juntos. Na minha família, graças às tias e à minha mãe, os pequenos e engraçados eventos permanecerão na memória dos filhos que passarão adiante para netos, bisnetos e quem vier depois.

Minha mãe e minhas duas tias moravam cada uma em um canto diferente do país. Minha mãe sempre me contava as memórias da família. O que eu não sabia é que minhas tias faziam o mesmo com suas filhas. Quando me juntava com as primas, elas também sabiam das situações cômicas que aconteceram bem antes de nascermos.

Um parente que levou bronca de sua mãe, ficou fulo da vida e sem saber falar direito respondeu com os dentes de leite arreganhados: "disgaçada, vontade que eu tenho é de fincar essa vassoia na tuia cabeça". E um outro menino feliz por ver o Papai Noel e seu pai tirando toda a sua ilusão, "ah, esse não é o Papai Noel, é o bêbado Fulano de tal", o filho, furioso, respondeu: "que raiva, vou chutar tuas batatas!".

Ou então a gata Dedé, mascote da família, que aprontava um monte. Ela gostava de emborcar um cágado também de estimação só para ver o pobre bicho se debater. Também colocava a pata em cima do disco enquanto rodava na vitrola. Ela era DJ, fazia scratch. Minha mãe uma vez a levou para tirar foto 3X4. Ainda temos a foto, atrás do retrato há o carimbo do ano, 1968.

Há também um tio-avô ateu e comunista que estava muito mal no hospital. Passou um padre, colocou uma hóstia em sua boca e ele mais do que depressa a cuspiu em um balde sujo. Outro também ateu dizia: "vão com Deus... e o diabo que me carregue".

Se eu e minhas primas fôssemos contar tudo o que ouvimos, daria para escrever um livrão. Está tudo guardado em nossas cabeças. Quando eventualmente nos encontramos, relembramos um pouco dessas divertidas histórias, e é claro, as nossas também.


*Esse texto foi inspirado na postagem da minha amiga Carolina, que está no Esculacho.
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De pais e de músicas

2.5.09


Como na música de Toquinho e Vinícius de Moraes, “menininha do meu coração eu só quero você a três palmos do chão”, lembro-me dos meus quatro ou cinco anos e meu pai dirigindo sua Variant amarela, sorrindo e dizendo que gostaria que eu nunca crescesse. Tão bom se você fosse para sempre minha filhinha, dizia ele. Eu com uma memória de elefante, e quem me conhece sabe disso, me recordei deste momento no instante seguinte em que abri o Messenger e me deparei com uma mensagem escrita por meu pai.

Nela, ele disse que ao pensar nas duas netas, filhas pequenas de meus dois irmãos, chorou ao se lembrar de mim quando era bebê. Um misto de tristeza e alegria me fez também chorar. Tristeza por causa da saudade de um tempo que não volta mais, época em que os pais me protegiam dos medos mais bobos. Com eles em casa, não havia monstros debaixo da cama e o escuro não era assustador.

Agora que não sou mais criança, os medos são outros. Na maioria das vezes, criados pela própria mente, assim como o bicho papão. Em alguns momentos são os mesmos temores que eles, pais, também têm. E como é curioso ver que eles, assim como eu, são inseguros em algumas ocasiões. Quando nós filhos percebemos isso nos deparamos com uma realidade: já somos adultos. Lá vem então Caetano me soprar no ouvido: "Nem um não, nem um dragão, nem um avião, nem uma assombração, nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo. Não tenha medo, não tenha medo, não".

A satisfação é ter vivido bons momentos ao lado de um paizão que me preparava pão com queijo derretido de manhã e quando meu estômago de passarinho não aguentava comer tudo, deixava eu comer somente o queijo. Felicidade de saber que a qualquer momento, ainda hoje, posso ficar horas conversando sobre os medos mais infantis e receber a proteção de uma voz segura e experiente. Prazer em ser pega de surpresa por um recado afetuoso.

Erico Verissimo em sua autobiografia Solo de Clarineta comentou que ao abraçar seu primeiro neto, sentiu como se estivesse abraçando seu pai, seus filhos, sua esposa e a ele próprio. Sempre que vejo minhas sobrinhas penso nisso e encontro nelas um pouco de cada um de nós. Acho que meu pai percebeu isso também nas meninas. Ele me viu criança, do jeitinho que sempre quis, a três palmos do chão.
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Bodas de ouro

30.12.08



Cinqüenta anos de casamento. Ainda tenho dois dias para usar tremas. Minha tia, irmã de meu pai, Maria Inês e meu padrinho, José Leonardo hoje comemoram as bodas de ouro. Meu tio sempre encantou as crianças com seu jeito sereno. Fazia qualquer criança manhosa parar com a choradeira com um simples colo. Eu fui um exemplo de criança dengosa e me acalmava com ele. E olha que ele é magrinho, nada de colo fofinho não.

Minha tia é uma dessas mulheres fortes e inteligentes. Nunca a vi chorar, nem mesmo quando faleceu sua irmã mais velha no ano passado. "Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração, mas não choramos à toa" cabe como uma luva para sua personalidade.

Hoje haverá missa e almoço para comemorar esses muitos anos de vida juntos. Escrevo não por causa das bodas ou da comemoração, mas do que havia no convite, além de uma belíssima foto do casal, o pedido de presentes: "aceitamos cobertores e/ou jogos de lençóis (solteiros), que doaremos a instituições de caridade".

A solidariedade, um gesto simples e grandioso, afinal, como disse minha tia, "já temos o suficiente". Muitas vezes damos presentes caros para quem tem mais dinheiro e coisas bobas para os menos abastados. Para quê? Para mostrarmos ostentação aos mais endinheirados e indiferença aos mais pobres? Por isso, Maria Inês e José Leonardo são exemplos a serem seguidos.
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Amizade desde sempre

23.12.08



Você já carregou um amigo no colo? Não é nada de auto-ajuda, é no sentido literal mesmo. Eu sou fraca, meus amigos são muito pesados para mim. Mas, quando se tem sete anos e a amiga tem alguns meses de vida, fica fácil.

Aline é afilhada de meus pais. Ela, sua mãe e sua irmã moraram um tempo conosco. No dia em que nasceu, recordo-me como se fosse hoje, eu no quarto brincava escrevendo em um pequeno quadro com giz e sua mãe se aproximou no corredor e me chamou. Percebi pela voz que algo de errado aconteceu. A bolsa havia estourado. Não sabia o que fazer, tinha apenas sete anos e estávamos só nós duas em casa. Felizmente deu tudo certo. Depois de seu nascimento, eu entrava em casa e sentia o cheiro de perfume de bebê. Na escola, eu dizia que tinha uma irmã mais nova, afinal de contas, só tenho irmãos.

Depois de um certo tempo, elas se mudaram, mas Aline continuou indo lá em casa. Fomos crescendo, veio a adolescência e as visitas começaram a ficar mais escassas, até que perdemos o contato. Mas, graças ao Orkut, nos reencontramos.

Batemos um papo cheio de lembranças boas e principalmente de novidades. Disse que torce para o Atlético por influência do meu irmão, coitada! Nem lembrava mais que minha Caloi Ceci eu havia dado a ela. E o Banco Imobiliário, que tenho até hoje, ela disse que adorava jogar. Essas coisas já haviam sido apagadas de minha memória.

Sempre eu e minha família nos recordamos de momentos importantes e engraçados envolvendo minha "irmã caçula". Quando tinha uns dois anos, cada vez que Aline via a foto do ex-ministro da Fazenda, Dilson Funaro, na revista Veja, abria o berreiro. Acho que não concordava com os planos econômicos desastrosos da década de 80 e sua maneira de expressar era chorando, assim como muitos brasileiros na época.

Seus primeiros passos foram estimulados com o gibi da Turma da Mônica estendido em sua frente para que pudesse alcançá-lo. Deu certo, caminhava um pouco, caía de bunda no chão, sorria e batia palma. A queda era amortecida pelas fraldas. Já tem um filho, Alysson, e hoje quem troca fraldas é ela.
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Quintana e meus amigos

25.11.08
Licença para colocar foto ao invés de desenho.


Do lado de fora

Se Porto Alegre possui a Casa de Cultura Mario Quintana, Curitiba homenageia o poeta com o Quintana Café e Restaurante. Claro, guardadas as devidas proporções, mesmo porque a Casa de Cultura era o Hotel Majestic e lá cabem mais espaços como cinema, biblioteca, museu, teatro, restaurantes, oficinas, exposições, e o que mais eu estiver esquecendo, ah, sim, o fantasma do próprio Quintana.

Apesar do Quintana Café ser um restaurante, com temperos deliciosos, também conta com uma biblioteca de alta qualidade. O visitante/leitor pode fazer empréstimo das obras. A biblioteca recebe várias novidades a cada mês.

Melhor do que comer bem e ver as paredes e cardápios cobertos de poemas de Mario Quintana é estar bem acompanhada. Eu, Lili, minha prima gaúcha, seus amigos, e agora também meus, Marco Aurélio de São Paulo e a catarinense Joana, demos boas risadas. Quando todos já estavam sentados, comentei que em nossa mesa cada um representava um estado brasileiro diferente. Prontamente, Rogério Moreira, garçom que nos serviu, chegou perto, levantou o dedo como um aluno que pede a vez e disse: "eu sou da Bahia". Estava feita a mistura com sotaque e regionalismo particulares.

Só em visitar o site já dá para perceber a sofisticação do lugar. Quem vier a Curitiba, não se arrependerá em conhecer o local.


O único que pode fumar no recinto
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Os metaleiros também amam?

22.10.08



Tudo começou com uma flauta. Foi na escola, não sei dizer ao certo, mas umas pessoas foram na sala de aula mostrar o método de ensino da aulética (escrevi isso só para me achar). Faziam de propósito, só para as crianças ficarem com vontade e encherem a paciência dos pais. Comigo não foi diferente. Uma semana depois, lá fui eu pra casa levando debaixo do braço um estojo com a flauta, uma fita K7 (menores de 15 anos, perguntem à mamãe o que é isto) e lições com partituras.

Tão doce e pura, coitada, quatro anos depois foi substituída por um pequeno teclado com 99 opções de sons de instrumentos diferentes. A diversão era escutar o som de cada um. Depois de passada a novidade, ouvia as músicas gravadas que o teclado possuía e tentava reproduzi-las. Um horror, era o dia inteiro tocando Yesterday nos ouvidos da família.

Não contente, passei para o violão e planejei uma estratégia. Pedi o novo instrumento ao meu pai que no início recusou, pois eu já possuía flauta e teclado. Encontrei um curso bem barato, mas o aluno deveria levar o violão, então, meu pai cedeu. A pestana me fez muitas bolhas nos dedos. Depois de muito custo, minhas mãos viraram cascos a ponto de perderem a sensibilidade. Troquei as cordas de aço por cordas de nylon, mas as impressões digitais já eram.

A maior culpada da próxima etapa foi Rita Lee. Vi na Capricho (uau, que intelectual) que a roqueira pediu de presente uma bateria quando completou 15 anos de idade. Como eu não tinha vontade alguma de fazer festa de debutante, escolhi mais um instrumento de corda para minha coleção, uma linda guitarra vermelha e branca (algo a ver com o Inter? Imagina!).

Com a influência dos sambas de Chico Buarque, comprei aos 18 anos um tamborim por R$10,00 no Palácio Musical. Acompanhei vários trechos de Vai passar. Era Chico no rádio, eu batucando e coro com uma mistura de "o estandarte do sanatório geral, vai passar" e "Luiza, pare já com essa barulheira".

Mesmo sabendo tocar muito pouco de cada um deles, ainda guardo todos com muito carinho. Não entendo certos roqueiros que destroem tudo ao final do show. Não pensam em nós que um dia babamos em frente às vitrines vendo uma guitarra, bateria ou baixo dos sonhos, sem poder aquisitivo para comprar.

P.S. Um dia ainda hei de chegar com um saxofone em casa.
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Imagens da infância

8.8.08


Para Ana Marta (Miuxa)*

Lembro-me de uma viagem a Vacaria, interior do Rio Grande do Sul. Madrugada, minha tia esperando do lado de fora de chinelos azul-marinho, num frio de renguear cusco, e levando bronca de minha mãe para entrar antes que pegasse gripe. Meus primos se queixavam porque lá não passava O Sítio do Pica-Pau Amarelo (primeira versão).

Uma casa bonita e confortável. Um quintal ótimo para brincarmos. E posso jurar que meus primos apontaram para uma cobra com venda nos olhos dizendo que era a cobra-cega. Morri de medo.

Havia diferenças regionais, eu e meu irmão falando com sotaque carregado de paranaense, "leite quente" e "você", enquanto os primos antes das frases colocavam um "ãhn" em tudo e falavam "tu", assim como minha mãe. Mas dessa vez não houve briga. O frio já era o inimigo que devíamos enfrentar.

Mãe e tia tomando chimarrão, puxando da memória histórias antigas sobre moradores de Santa Maria, conversa alta, risadas gostosas e nós sem podermos ver O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Melhor assim, não haveria Cuca para temer. Somente aquela cobra com lenço nos olhos no meio do quintal. Para falar bem a verdade, o frio não foi tão antagonista. Por causa dele, brincávamos em casa, sem ter de enfrentar a tal cobra-cega, que na minha cabeça, era um bicho muito venenoso.

*Prima que ainda não era nascida nesta época e está se formando hoje em Jornalismo.
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Mar e piscina

11.7.08


Ah, o mar! Lembro-me da primeira vez que o vi. Foi em Itapoá-SC, com meus pais e meu irmão, dia um pouco frio, sem ninguém na praia. Logo que chegamos, fui com meu pai entrar naquele marzão sem fim. Quer dizer, nos meus três, quase quatro anos, achava que as ondas uma hora acabariam de se formar. Mas, quando achava ser a última, lá vinham outras atrás e nunca deixavam a água lisinha. Isso me irritou e quis voltar ao hotel. Mesmo porque as ondas de Itapoá são muito fortes e sempre me derrubavam.

Naquele momento, preferia piscina. Em Santa Maria-RS, dois anos depois da experiência com o mar, na casa da prima da minha mãe que possuía piscina, foi um alívio no infernal verão daquela cidade. O que era uma alegria se tornou uma enorme preocupação.

Uma das crianças da casa disse que não podíamos fazer xixi na água, pois ela se tornaria uma mancha vermelha no local. Acontece que ela avisou tarde demais. De repente, começou a chover. Todos voltaram para dentro de casa, tomaram seu banho e eu preocupada, espichava os olhos por trás da porta de vidro tentando ver se a piscina estava avermelhada. Nem podia chegar perto, pois chovia muito e certamente desconfiariam de algo. O que afinal estaria eu fazendo na chuva? Mais ou menos como “quem soltou pum está com a mão amarela”.

Sinceramente, até hoje nunca vi piscina vermelha. Na dúvida e pela higiene, nunca mais fiz xixi nela. Já, no mar...
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A irmã que nunca tive

19.5.08
Blogocular também faz trilogia. Prosseguindo com o tema:
A cidade que nunca foi minha
O colégio onde nunca estudei

Sempre quis uma irmã, mais nova ou mais velha, não importava. Peguei emprestada a irmã mais nova de meu meio-irmão. Demos muito nó nas cabeças de nossos amigos, "como assim é irmã de seu irmão mas não é sua irmã"? Ah, como nos divertíamos! A casa dela era cheia de gibis da Turma da Mônica e a despensa da cozinha abarrotada de bolachas recheadas da São Luiz (hoje Bono). Era ótimo ler revistinhas enquanto enchíamos a pança de guloseimas.

Eu, por ser um ano mais velha, sempre ganhava quando apostávamos corrida. Depois, ela passou de mim. Na altura também. Isso não é vantagem, sou baixinha mesmo. Éramos duas enjoadas, na hora do almoço não comíamos quase nada. Depois, fiquei sozinha nessa, ela passou a se alimentar bem. Eu demorei mais tempo para virar fã de comida.

Fizemos o mesmo curso. Quer dizer, os mesmos, mas eu terminei somente um e ela os dois, Jornalismo e História. Ela antes de mim. Somos duas cagonas no volante, ela perdeu o medo antes de mim. Era tudo o que eu queria, como disse, não importava se fosse mais nova ou mais velha. Ela é a irmã mais nova com qualidades de mais velha.
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Dose-dupla

27.4.08

Meia-luz, passos silenciosos, vozes em cochicho. Sinal de que há bebê em casa. Essa criaturinha nos força a ter serenidade para poder relaxar e ter um sono tranqüilo. Nunca havia parado para pensar, nove meses é muito pouco e no entanto do ventre sai um ser humano perfeito em miniatura.

Isso tudo para contar a novidade, não tão nova assim: há dois meses nasceu minha primeira sobrinha. Deus é sábio, com apenas uma célula se dividindo em duas, quatro, oito e clivagem, mórula, blastocisto (ah, as sonolentas aulas de Embriologia) e Lorena! Nada de cara de joelho. Aliás, os joelhos de bebês são tão bonitos que dá vontade de morder. Um dia ainda experimento essa gostosura.

Lorena foi meu primeiro sentimento mais próximo de maternidade. Não me canso de vê-la dormir ou tremer o queixinho quando chora. Para ela, não importa de quem é o colo. O importante é estar em cima de alguém para subir e descer suavemente no ritmo da respiração do corpo que se faz de cama.

Às vezes é manhosa como a tia um dia foi. Outras, gulosa como o pai. Seu alimento preferido, a própria mãe, como disse certa vez. Adora a hora do banho. Bate as perninhas tentando nadar. Não é só para ela a hora mais divertida, para nós que a assistimos também. Pára de chorar quando alguém canta para ela. Curte música, esses dias sorriu quando eu cantava o Hino Nacional no ritmo de Fafá de Belém, bem na parte do "ó, Brasil, florão da Amééééérica". Provavelmente pensando "ah, fala sério, tia, nosso país é isso mesmo?"

Quando começar a ficar maior, a nos deixar sentindo saudade da meiguice de um recém-nascido, já terá nascido em setembro minha outra sobrinha, Luana, filha de meu outro irmão. E tudo recomeçará deliciosamente...
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Aos colegas da 1ª série H (1986)

3.2.08
Encontrei inspiração no blog de José Vitor, Sinopse Inacabada, ao ler o post sobre supermercado do dia 03 de fevereiro (dia de hoje para quem for lá hoje). Viajei no tempo e fui encontrar uma menina bobinha, eu! Em uma determinada aula, na primeira série do primário, a professora perguntou a todos os alunos qual era o dia preferido da semana e o motivo. Eu, como já disse, ingênua, disse que era sábado porque nesse dia a família ia ao supermercado. Era divertido, meu pai deixava eu escolher as guloseimas de que eu mais gostava. É certo que muitas vezes ele comia alguns salgadinhos e chocolates meus.

Passei vexame, metade da sala me achou maluca, a outra metade riu sem parar me achando idiota. Mas não era só isso, eu e meus irmãos brincávamos pelos corredores com os carrinhos quando o supermercado não estava muito cheio. Meu irmão mais velho sempre teve o cuidado de não esbarrar em ninguém. Depois, todos nós nos reuníamos para comer as besteiras em frente à televisão. Programa de índio? Não concordo, para mim era gostoso e me lembro com carinho dessa época. Por ser do primeiro casamento do meu pai, meu irmão mais velho morava com sua mãe. Nos finais de semana ele passava conosco e era ótimo porque ele sempre teve paciência comigo e com meu outro irmão, além de ser muito criativo nas brincadeiras.

Eu não tive cabeça na época para pensar em tudo isso e explicar aos meus amiguinhos de sala. Não era bem o supermercado e sim tudo o que acompanhava o sábado. Sorte a minha não ser filha única. Tinha muitos amigos no prédio onde morava e ainda irmãos para brincarem e brigarem. O sábado ficava mais completo quando aparecia minha quase irmã. Ela é irmã de meu meio-irmão, do segundo casamento da mãe deles. Isso os meus colegas de escola também não entendiam e eu adorava confundi-los. Mas isso é uma outra história que ficará para outro post.

Deixo aqui registrado que continuo gostando de ir ao supermercado e ainda como salgadinho. Ah, Doritos, Fandangos, Cheetos, Ruffles e Pingo d'Ouro com Coca-Cola com um bom filme. Meus ex-colegas devem fazer isso também, mas nenhum deles se lembra da minha história.
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