
Tudo começou com uma flauta. Foi na escola, não sei dizer ao certo, mas umas pessoas foram na sala de aula mostrar o método de ensino da aulética (escrevi isso só para me achar). Faziam de propósito, só para as crianças ficarem com vontade e encherem a paciência dos pais. Comigo não foi diferente. Uma semana depois, lá fui eu pra casa levando debaixo do braço um estojo com a flauta, uma fita K7 (menores de 15 anos, perguntem à mamãe o que é isto) e lições com partituras.
Tão doce e pura, coitada, quatro anos depois foi substituída por um pequeno teclado com 99 opções de sons de instrumentos diferentes. A diversão era escutar o som de cada um. Depois de passada a novidade, ouvia as músicas gravadas que o teclado possuía e tentava reproduzi-las. Um horror, era o dia inteiro tocando Yesterday nos ouvidos da família.
Não contente, passei para o violão e planejei uma estratégia. Pedi o novo instrumento ao meu pai que no início recusou, pois eu já possuía flauta e teclado. Encontrei um curso bem barato, mas o aluno deveria levar o violão, então, meu pai cedeu. A pestana me fez muitas bolhas nos dedos. Depois de muito custo, minhas mãos viraram cascos a ponto de perderem a sensibilidade. Troquei as cordas de aço por cordas de nylon, mas as impressões digitais já eram.
A maior culpada da próxima etapa foi Rita Lee. Vi na Capricho (uau, que intelectual) que a roqueira pediu de presente uma bateria quando completou 15 anos de idade. Como eu não tinha vontade alguma de fazer festa de debutante, escolhi mais um instrumento de corda para minha coleção, uma linda guitarra vermelha e branca (algo a ver com o Inter? Imagina!).
Com a influência dos sambas de Chico Buarque, comprei aos 18 anos um tamborim por R$10,00 no Palácio Musical. Acompanhei vários trechos de Vai passar. Era Chico no rádio, eu batucando e coro com uma mistura de "o estandarte do sanatório geral, vai passar" e "Luiza, pare já com essa barulheira".
Mesmo sabendo tocar muito pouco de cada um deles, ainda guardo todos com muito carinho. Não entendo certos roqueiros que destroem tudo ao final do show. Não pensam em nós que um dia babamos em frente às vitrines vendo uma guitarra, bateria ou baixo dos sonhos, sem poder aquisitivo para comprar.
P.S. Um dia ainda hei de chegar com um saxofone em casa.

