Pequena amiga

30.8.10
"Desde então, tenho uns agostos por dentro, umas febres. Uma tristeza que nada, nem ninguém conserta. É assim que se começa a partir?"
Caio Fernando Abreu

O escritor Caio Fernando Abreu odiava o mês de agosto. Também pudera, demora a passar, é frio e sem nenhum feriado. Mas, o pior é quando neste mês, além de todas essas falhas, ainda perdemos alguém muito querido. Minha gatinha Bibiana morreu esses dias. Não bastasse perder o Betinho em janeiro, agora foi a vez da gata branca.

Convivi com o primeiro durante 17 anos e com a Bibi, um ano e oito meses. Não tinha muita aproximação com ela, claro que a alimentava, fazia carinho, mas afetivamente, parecia distante. Até que eu percebi que mantinha o distaciamento justamente para não me apegar, fugir do sofrimento no momento em que eu não a tivesse mais. E quando tive consciência disso, ela começou a se aproximar mais de mim. Havia dias em que eu precisava cuidar das minhas coisas, mas nem saía do sofá só para não perturbar o sono dela em meu colo. Ainda bem, porque de outra forma, teria me arrependido agora.

Ela apareceu bem magrinha na rua onde moro. Eu e o Eugenio acolhemos a gatinha e depois descobrimos que se tratava de uma senhora já. Mesmo pequenina, era forte. Dei o nome de Bibiana por ser uma personagem marcante de Erico Verissimo. A veterinária disse que provavelmente tinha donos porque um gato não vive tanto tempo sozinho na rua.

Ultimamente emagreceu repentinamente, estava abatida e fomos à clínica ver o que havia de errado. Achei que fosse algo simples, mas a veterinária pediu para ela passar a tarde lá para fazer exames e tomar soro. Foi elogiada, muito boazinha. Era meiga, doce, um amor de gata. Foi constatado câncer em uma das patas e no pulmão. A veterinária disse que não tinha muito tempo de vida, no máximo duas semanas. Quando voltou para casa, o abatimento piorou, ficava parada em frente ao pratinho de comida e só tomava leite. No dia seguinte, percebendo seu cansaço e sua fraqueza, decidimos abreviar seu sofrimento. Não seria justo com ela mantê-la daquele jeito. Seria egoísmo de nossa parte.

De volta à clínica, quando eu estava me despedindo, ela que mal se mexia, virou a cabeça em direção ao Eugenio. O momento mágico, ela certamente sabia o que estava acontecendo. Não vi o semblante dela, mas o Eugenio disse que a gatinha estava com o rosto sereno. Era uma forma de agradecer, de dar um tchau, não sei. Quando penso nela, de como tudo foi muito rápido, me consolo ao lembrar que viveu bem conosco e morreu de uma forma tranquila e não de fome na rua. Eu prefiro acreditar que ela se perdeu e não foi abandonada pelos antigos donos.

Tenho muita sorte de ter ao meu lado o Eugenio que aceitou acolher a gatinha, entendeu minha perda, também sofreu e limpou o queixo sujo de leite da Bibi: "como é que você vai chegar no céu e beijar o Betinho com essa boca suja?" É nessas horas que rimos mesmo estando tristes.


Todas as formas de chamar a gatinha: Bibiana, Bibi, Bibizica, Bibizinha, Gata Branca, Nekinha, Neka Branca, Bica, Bica Louca, Raposinha do Ártico, Gato Anão, Branca-Branca, Bibiex, B.B. Queen.


2 comentários:

Eugenio Hoch Junior disse...

No que me diz respeito, a gata Bibi deixou rastros (com cheiro) em nós que ficamos com ela até o fim. Ficou pouquinho, 1 ano e 8 meses, mas o que ficou vai ser lembrado. Bjs

Liège disse...

Que pena! Mas que bonitos sentimentos e lembranças ela despertou em vocês.