Lamento de cativeiro

19.11.09
Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me! Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o Carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica do Brasil. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, peça, escravo. Fui a mãe preta para teus filhos. Cultivei os campos, plantei o fumo e a cana. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, de gente pobre mas livre. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza seja para sempre verdade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.

E quando se pensaram políticas que reparassem a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades, a maioria dos teus grita: é contra a Constituição, é uma injustiça social.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Leonardo Boff
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Nosso Colorado

8.11.09



Torcer por um time significa o quê? Não exatamente com os outros, mas comigo, é uma aceleração no coração cada vez que vejo o símbolo do Internacional. É como ser estrangeiro e ver a bandeira do Brasil, é se sentir em casa mesmo estando longe dela. Quando vejo qualquer coisa relacionada ao meu time, não é somente futebol que me vem à cabeça, é um conjunto de sentimentos, amizade, saudade, afeto familiar.

Ver a torcida no Beira-Rio toda agasalhada, num "frio de renguear cusco" e assim mesmo ali, torcendo com zero grau na cuca, me lembra Porto Alegre e da época em que lá morei. Já era colorada quando fui para lá. Fazer amizade com pessoas maravilhosas como Josiane, Maíra e Vanessa foi uma grande surpresa e sendo as três coloradas, cada vez que vejo imagens de torcedores do Inter pelas ruas de qualquer cidade do Rio Grande do Sul, lembro-me das três.

Ligar a televisão para ver uma partida importante é visualizar as primas de joelhos em frente à tela, perdendo a voz de tanto gritar. O Inter faz a conexão de nós quatro, cada uma em um estado diferente, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Paraná. É quase uma telepatia, todas se lembram das demais e lá se vão as mensagens por celular.

Assistir a uma matéria sobre o Colorado é imediatamente passar a mão no telefone e ligar para minha mãe, “coloca em tal canal, está passando o Colorado” ou “viu o que falaram do Colorado”? Assim mesmo, Colorado, porque a intimidade de chamá-lo desse modo não é para todos, somente para os torcedores ou por quem com muito respeito tem carinho pelo time.

Acompanhar qualquer partida é lembrar que minha mãe já não pode mais assistir aos jogos porque dá taquicardia e gritar a plenos pulmões goooool como se ela pudesse escutar do outro bairro e ao menos ver o replay do gol para novamente desligar a televisão e torcer sem ver.

Ganhar um campeonato e depois pessoas que nem torcem para o Inter ligarem no mesmo instante dizendo que estavam na torcida por nossa causa é saber que somos queridos. De uma forma carinhosa, chamam o clube de Colorado.

O Internacional não é um time do Rio ou de São Paulo para ser badalado, mas também não é pouca coisa, visto que já ganhou três títulos do Brasileirão e ultimamente conquistou campeonatos importantes. É um time que peleia e por isso, não há como ignorá-lo. Por não morar no Rio Grande do Sul, não é todos os dias que vejo alguém com a camiseta do Inter. O raro então torna-se mais interessante. Encontrar o símbolo onde moro é como achar um tesouro. Pronto, tudo vem à mente, a mãe, as amigas, as primas, Porto Alegre. Melhor assim, um time que às vezes explode para depois ficar por ali no meio da tabela. Assim não enjoa ninguém e sempre continuará querido até mesmo por quem nem curte o Colorado.
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