Simples assim

16.5.09


Na minha infância, eu literalmente cantava no chuveiro. Minha mãe dizia que eu era afinada. Se me perguntassem o que queria ser quando crescesse, diria, “quero ser cantora”. Era brega, cantava sem parar O amor e o poder, “como uma deusa você me mantéééém”. Iniciei aula de violão, mas tinha vergonha de cantar. Também deixei de cantar no banho.

Um gato arisco que só ficava próximo a seus donos vinha no meu colo. Isso era motivo para me apontarem o curso de Veterinária. Fui conhecer a Sociedade Protetora dos Animais e chorei durante uma semana inteira só de me lembrar dos bichinhos debilitados.

Depois, eu fazia palhaçadas, inventava coisas e meus amigos diziam para eu virar atriz. Fiz curso de teatro durante um ano. O mais legal era sair depois da aula com o grupo e com o professor para jogar conversa fora. Nenhuma peça foi apresentada porque na aula só havia bagunça.

No vestibular optei por Jornalismo porque um teste vocacional revelou ser a área de Humanas a melhor para mim. Diploma na mão, nenhuma perspectiva, deixei de procurar por algo que no fundo não gostava.

Resolvi me dedicar ao blog. Tomei gosto pela escrita porque ninguém decidiu isso por mim. Às vezes crio textos mentalmente. Quando consigo um pouco de tempo para escrever aqui, as ideias já se perderam. Ou na hora de escrever não fica tão bom quanto eu esperava. Puxa vida, mas na minha cabeça havia ficado tão legal... Mesmo assim, sinto-me feliz quando clico no botão publicar postagem mesmo que cinco segundos depois eu passe a odiar o texto. Desenvolvi um certo carinho pelo Blogocular. Fiz muitos amigos por causa dele. E gostei.
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De pais e de músicas

2.5.09


Como na música de Toquinho e Vinícius de Moraes, “menininha do meu coração eu só quero você a três palmos do chão”, lembro-me dos meus quatro ou cinco anos e meu pai dirigindo sua Variant amarela, sorrindo e dizendo que gostaria que eu nunca crescesse. Tão bom se você fosse para sempre minha filhinha, dizia ele. Eu com uma memória de elefante, e quem me conhece sabe disso, me recordei deste momento no instante seguinte em que abri o Messenger e me deparei com uma mensagem escrita por meu pai.

Nela, ele disse que ao pensar nas duas netas, filhas pequenas de meus dois irmãos, chorou ao se lembrar de mim quando era bebê. Um misto de tristeza e alegria me fez também chorar. Tristeza por causa da saudade de um tempo que não volta mais, época em que os pais me protegiam dos medos mais bobos. Com eles em casa, não havia monstros debaixo da cama e o escuro não era assustador.

Agora que não sou mais criança, os medos são outros. Na maioria das vezes, criados pela própria mente, assim como o bicho papão. Em alguns momentos são os mesmos temores que eles, pais, também têm. E como é curioso ver que eles, assim como eu, são inseguros em algumas ocasiões. Quando nós filhos percebemos isso nos deparamos com uma realidade: já somos adultos. Lá vem então Caetano me soprar no ouvido: "Nem um não, nem um dragão, nem um avião, nem uma assombração, nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo. Não tenha medo, não tenha medo, não".

A satisfação é ter vivido bons momentos ao lado de um paizão que me preparava pão com queijo derretido de manhã e quando meu estômago de passarinho não aguentava comer tudo, deixava eu comer somente o queijo. Felicidade de saber que a qualquer momento, ainda hoje, posso ficar horas conversando sobre os medos mais infantis e receber a proteção de uma voz segura e experiente. Prazer em ser pega de surpresa por um recado afetuoso.

Erico Verissimo em sua autobiografia Solo de Clarineta comentou que ao abraçar seu primeiro neto, sentiu como se estivesse abraçando seu pai, seus filhos, sua esposa e a ele próprio. Sempre que vejo minhas sobrinhas penso nisso e encontro nelas um pouco de cada um de nós. Acho que meu pai percebeu isso também nas meninas. Ele me viu criança, do jeitinho que sempre quis, a três palmos do chão.
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