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O gato do Natal

23.12.10
Há 18 anos, ganhei de presente um amigão. Como já disse anteriormente, meu melhor presente. Foi de Natal, no dia 23 de dezembro, eu e minha mãe fomos escolher o gato siamês que para sempre mudaria nossas vidas. Ele era meio medroso no início, fugia dos humanos, mas em 24 de dezembro já estava familiarizado. No dia em que se prepara um delicioso peru, o gato se apaixonou pelo prato do Natal.




Bolinhas são a diversão não só para filhotes, mas de felinos adultos também. Betinho, com apenas dois meses, rondava pela sala a procura de algo. Minha mãe então, meio distraída, pegou um pedaço do papel laminado que cobria o peru, amassou-o transformando em uma pequena bolinha e jogou para o gato brincar. Ele deu uns tapinhas, mas cheirava muito seu novo e provisório brinquedo por ter o aroma do alimento que ele envolvia. Depressa, com medo que ele comesse o papel laminado, tirei dele a saborosa diversão. No lugar, no momento sem muitas opções, pois ainda não possuíamos brinquedos adequados para gatos, ele aceitou um bastão de cola Print.







Ali descobrimos serem frangos, perus e chesters seus pratos prediletos. E foi assim por 17 anos. No final de cada ano, simplesmente, o gato ficava louco querendo o tempo todo comer o peru ou o chester. Acho que abocanharia, se tivesse oportunidade, um frango inteiro, como fazia Garfield em suas historinhas.


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Miado para meus ouvidos

24.7.10



Lá por meio-dia, numa segunda-feira, no dia 11 de abril de 1994, quando fiz 15 anos, ao voltar do colégio passei pela portaria do prédio onde morava e a zeladora me entregou um buquê de flores. Nele, havia dois cartões, um assinado pelos meus pais e irmãos e outro escrito por minha mãe com a "assinatura" do Betinho e com a marca da pegada do gato.

Minha mãe então contou a façanha. Pegou o vidro de tinta de sua caneta-tinteiro, passou na "palma" da pata do gato e a pressionou de leve em um cartão. Antes que ele fizesse qualquer movimento, ela correu para a torneira e começou a lavar sua pata para não haver problemas maiores, nem para a saúde do bichano, nem para a casa que ficaria borrada de manchas. Mas, como nunca gostou de água, ficou furioso, miava, esbravejava, acho até que minha mãe levou umas arranhadas. Depois, bem limpinho, pôde voltar as suas brincadeiras, pois na época não tinha nem dois anos. Guardo o cartão, como podem verificar na postagem anterior.

No mesmo dia, ganhei de meu pai uma guitarra. Tudo ideia de Rita Lee. Li numa reportagem que ela pediu a seu pai uma bateria quando completou também 15 anos. Eu não queria festa de debutante e como já arranhava um pouco o violão, resolvi seguir os passos de Rita Lee. Mas, não fui muito longe. Até toco algumas coisas, entretanto, longe de mim compor e cantar, morro de vergonha. Só quando não havia ninguém por perto eu cantava baixinho. Aliás, nem na frente do Betinho eu tinha coragem.

A guitarra ainda tenho e de vez em quando toco, inclusive na frente dos outros gatos, Bibi e Neko. Acho que não sou muito boa nisso, eles sempre saem de perto...
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De um amigão

20.7.10

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A gente escreve pra desabafar

26.2.10





Foi tudo muito rápido, de repente, não havia mais Betinho. Voltei para casa com seu transportador vazio. Pelo caminho, um carro passou espirrando água e eu soltei um sonoro "filho da puta" como se ele tivesse molhado meu gato que nem estava ali. Foi um desrespeito, pensei. Acho até que chegou a diminuir a velocidade. No dia seguinte pensava, a essa hora de ontem o Betinho ainda estava vivo. Ah, se na vida também houvesse control Z, eu daria quantas marteladas fossem preciso nas teclas para reverter tudo, até o instante em que ele, deitado na cama de minha mãe, dormia e Lorena, minha sobrinha, falava, Betoooo, para acordá-lo. Ele tinha medo de criança, mas com a Lorena foi diferente, até no pequeno colo de minha sobrinha ele se deitou atravessado, quando ela bateu as mãozinhas nas perninhas para chamá-lo.

Até o último momento, tive esperanças. Estava almoçando com meu pai quando a veterinária ligou dizendo que o Betinho estava na mesma situação, quase 24 horas na respiração artificial e pediu para eu ir lá. Naquele momento, percebi, ela queria que eu fosse me despedir dele. Meu pai também estava esperançoso, mas quando disse a ele a minha impressão, vi que ele segurou o choro. Meu pai não estava bem de saúde, mas insistiu para ir junto. "Você não vai lá sozinha", dizia. Penso que na verdade também queria dar um tchau ao Betinho. Consegui convencê-lo a ficar.

Chorei muito, é verdade. Mas, dois dias depois, parecia estar sem emoção, logo eu que choro agora vendo novela, isso mesmo, como Zeca Baleiro dizia, "ando tão à flor da pele", achava um exagero, "qualquer beijo de novela me faz chorar" e comecei a me emocionar com as coisas mais tolas. Dois dias depois da morte do Betinho, parecia sem sentimento algum, via os vídeos dele e nada sentia. O Eugenio dizia para eu parar porque ia ficar triste, mas percebia que ele estava sentindo saudade do gato, que no primeiro contato já se tomou de amores por ele. Aliás, foi recíproco. Só não imaginava como o gato era tão querido por ele. Quando falei que estávamos indo nos despedir dele na clínica, Eugenio caiu em prantos. Não esperava aquilo, me comovi ainda mais.

Um pouco antes, estava sozinha na rua caminhando, ainda com esperanças de seu quadro se reverter e fiz como a personagem de Audrey Tatou no filme Eterno Amor que pensava, "se o Grão-Duque (cachorro) entrar no quarto antes de meu tio, é porque meu noivo está vivo". O rapaz havia ido para a guerra e como não recebia notícias, tinha esses pensamentos. Vi um cavalo parado na rua, com uma carroça nas costas e pensei, se ele me olhar, o Betinho não terá chances de sobreviver. E com a cara mais simpática do mundo, o cavalo virou a cabeça e me ollhou. Aquela doçura de animal, que carregava o peso dos outros, que sofria noite e dia, como o odiei naquele instante e chorei, sem vergonha de as pessoas me olharem, estava perdendo um ente querido.

Quando meus amigos Luciana e Rafael escreveram a homenagem aos amigos na formatura, fizeram questão de citar o Betinho, o que levou minha mãe à vibração e nós duas, já quase sem esperanças nos lembrávamos daquele momento novamente e chorávamos. Recordamo-nos também de quando fomos à praia e deixamos o gato na casa de uma amiga. Ficamos com certo receio de que ele fugisse porque estava acostumado a viver em apartamento, não saberia se virar sozinho. Então, quando algum bicho chegava perto, inventávamos que eles traziam recados do Beto. Era engraçado, às vezes chegávamos mesmo a acreditar, por que afinal, um siri chegaria tão próximo a nós? Outra vez, minha mãe estava no banho e na janela apareceu um beija-flor que ficou um tempo parado ali. Foi o mais marcante, mesmo sem eu ver, imaginei a cena e senti que estava tudo bem com meu gatinho. Por aqueles dias, ele ficou perdido, segundo informou a amiga. Curioso como todos os gatos, saiu de casa e não soube voltar. Realmente estava bem e por isso passei a gostar ainda mais de beija-flor. Agora era o cavalo enviando uma mensagem de desesperança.

Minha mãe e eu decidimos cremar o Betinho. Foi em um lugar afastado, uma chácara bem tranquila onde pessoas muito queridas trabalham com profissionalismo, respeitando a dor de quem perde o companheirinho. O funcionário, quando foi me entregar a urna, disse-me que normalmente as pessoas sentem uma enorme paz ao receberem as cinzas. Imaginei que comigo não fosse acontecer o mesmo. Deixei o Eugenio carregar até o carro as cinzas do Betinho, afinal, eram também grandes amigos. Quando estávamos saindo, um beija-flor voou perto e saiu. Novamente voltou e parou diante do Eugenio e do Betinho. Ali eu senti a tal paz que o homem havia dito. Era como um recado do meu gatinho, "olha, estou bem". Foi um conforto. Dias depois, o Eugenio sonhou que o passarinho disse, "sempre quis ser livre, agora posso voar". O gato de apartamento...

Um dia cheguei no apartamento de minha mãe e estranhei, o lugar estava cheio de insetos, principalmente mariposas. Betinho, assim como todos os gatos, caçava insetos, mas ultimamente não fazia mais. Uma mariposa em especial me chamou atenção, pois era clara com as extremidades mais escuras, assim como o Betinho, siamês. Não sei se ele se transformou em vários bichinhos ou se tentava mandar recados agora do céu, porque os gatos, assim como os cães, também merecem o céu.

Ontem, ao conversar com minha amiga Marina, que está lá nos Estados Unidos, fiquei surpresa com sua reação. Escreveu ela: "como assim? Não pode ser verdade! Poxa, Luiza sem Betinho é difícil de imaginar". E olhe que ela só o viu uma vez. Pensei que ela fosse me dizer o óbvio, "ah, ele estava velho mesmo", coisas desse tipo. Não que eu esperasse dela tal reação, mas que fosse cuca fresca, não sei explicar. Milena, que agora mora em São Paulo, também se comoveu e ainda escreveu que agora virou também fã de gatos. Denise está em Londrina e disse-me: "sei bem o que é perder um bichinho, a Diana morreu no ano passado aos 14 anos".

Meus sentimentos voltaram, prefiro ser uma manteiga derretida do que ser aquele ser frio dois dias após a morte do Betinho. Quando começo a me entristecer por causa dele, faço uma força e me lembro de como ele ficava quando eu estava pra baixo, se aproximava para me acudir. Também lembro-me do recado que mandou pelo beija-flor, "estou bem, fique bem também". E me alegro.




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Um anjo

27.1.10



Imagine uma adolescente de 13 anos em uma turma de 45 alunos. Já meio encurvada por causa da timidez, no início do ano passava o recreio sozinha por se sentir deslocada. Pelo motivo de não ter amigos no colégio, queria sair de lá, mas, duas colegas se aproximaram e fizeram amizade.

Pense que, após o término do ano letivo, depois de passar pela experiência de ficar em recuperação em Matemática, com medo da reprovação, ganhou o melhor presente de sua vida, uma compensação, pensou ela, por tudo o que passou naquele período de 7ª série: um gato siamês. Um companheiro, alguém que sem precisar pedir permissão entrava em seu quarto e se acomodava em seu colo ou se sentava ao seu lado. Silencioso, como se compreendesse aquela fase tumultuada de uma não mais criança e ainda não mulher, tornou-se uma agradável companhia.

Já nos anos seguintes, fez a menina se divertir muito. Durante as lições de Desenho Geométrico, quando parava de desenhar para ajeitar a régua, ele dava tapinhas no lápis para prosseguir, como quem diz, “termine logo isso e vamos brincar”. Ou quando a Matemática se tornou novamente a vilã, na hora da tarefa, com a apostila aberta, simplesmente esparramava seu corpo sobre a matéria a ser estudada, evitando que sua dona estudasse. Também em seus frenesis diários, se pendurava na cortina de renda e subia até o teto, igual a um macaco.

Gostava de brincar com objetos simples. Uma bolinha de papel era brinquedo barato, mas muito divertido. Ficava horas entretido e algumas vezes, miava pedindo para alguém brincar juntamente.

O gato sentia cada vez que sua dona estava chateada. Com seus grandes olhos azuis, expressivos, olhava-a, parecia ter um enorme ponto de interrogação sobre a cabeça, assim como nas histórias em quadrinhos, sem compreender o que era aquilo, mas sabendo que deveria se aproximar para tirar aquela dor. Ele sempre fazia isso quando sua amiga entristecia.

Ou então, naqueles dias chatos de cólica, prontamente sentava em seu colo e só saía quando a dor aliviava. Parecia saber o momento certo. Depois, dormia como a se recuperar do esforço e retomar sua energia. Às vezes alguns medos infantis ressurgiam, dormir sozinha era difícil, mas lá estava seu amigo para adormecer junto e garantir bons sonhos.

Ela sempre falava dele para os novos amigos e por conta disso, mandavam abraços, beijos, afagos, agrados e lembranças ao gato. Conheceu outras pessoas que também adoram gatos e fez com que alguns que não gostavam dos pequenos felinos, os vissem com outros olhos e passassem também a admirá-los.

Reflita agora que esse gato viveu 17 anos e por todo esse tempo foi um grande companheiro. Imagine o sofrimento de perder o melhor amigo. Mesmo que você não goste de animais, que nunca tenha convivido com um diariamente ou ache um exagero por ser somente um animal, enquanto muitos humanos sofrem, entenda, é melhor amar demais do que maltratar qualquer ser.

Agora, a mulher tem quase 31 anos, com a maior parte da vida acompanhada pelo Betinho. Uma pessoa já adulta, mas que sente um grande vazio porque não tem mais seu companheiro que tirava a dor. Com muito mais amigos, mais segura e confiante, porém sem o amigo que mandava a tristeza para bem longe. Não entende as pessoas que dizem, “ah, mas já estava velhinho”, como se tivesse que se conformar, pois quanto mais tempo passamos com alguém que amamos, mais queremos tê-lo por perto.
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Meu bicho preferido

8.10.08



Acordo às cinco da manhã com arranhões na porta. Seis graus de miopia e vou sonâmbula sem os óculos, guiada pelo borrão branco a minha frente direto ao pacote de ração. Despejo comida no prato. Volto me amparando nas paredes por estar sonolenta e sem o guia que ficou para trás a mordiscar peixinhos, estrelinhas e coraçõezinhos. Para ele não faz a menor diferença o formato ou a cor. Jogo-me novamente na cama para uma nova etapa de sono. Ele também.

Betinho tem hoje 16 anos, cinco quilos e 16 horas de sono por dia. Já dormiu em toda a sua vida mais do que eu, com quase o dobro de sua idade. Ainda brinca, seu brinquedo predileto sempre foi o pinhão, semente do pinheiro. Dá cada drible!

Siamês, vesgo, dentuço, carinhoso. Sente quando alguém está triste e tenta consolar com suas passadas de corpo nos rostos abatidos. Descobre lugares novos na casa, desconhecidos por nós. Curioso, mas ao mesmo tempo medroso. Detesta, ou melhor, tem pavor de andar de carro. Ir ao veterinário é uma tortura, mas se comporta muito bem na clínica. Não dá um gemido quando aplicam vacina. O mesmo não posso dizer sobre o termômetro. Chega a rosnar.

As janelas são abertas somente quando não há perigo para ele cair, ou seja, quase nunca. Abro a porta com todo o cuidado com medo de que ele à espreita possa fugir. Criei o hábito de olhar para o chão em todos os lugares onde entro com receio de que o gato possa fugir, mesmo não havendo qualquer bicho no local.

Também virei adepta de coleção de bugingas felinas. Pingentes, brincos, chaveiros, bibelôs, porta-retratos, tudo em formato de gatos. Possuo mais de cem itens. Dar presente para mim é fácil.

É mito quando falam que o gato se apega mais à casa e não quer nem saber do dono. Aliás, ele não possui proprietário, os humanos é que são dele. Não é verdade a fama de traiçoeiro, apenas faz surgir os instintos de seus primos selvagens quando acha necessário.

Betinho, parabéns pelo seu aniversário e desculpe o desenho malfeito. E vê se estuda, rapaz, onde já se viu gato tirar nota de cão?
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