Outubro. Curitiba, inverno

10.10.09


Vamos relembrar as aulas de Biologia. Existem animais homeotermos e outros que são pecilotermos. Os primeiros mantêm a temperatura do corpo constante, como nós, os mamíferos, que mesmo deixando de mamar, carregaremos para o resto da vida essa denominação, assim como alguns apelidos de infância. Já os do segundo grupo variam a temperatura conforme a do ambiente. São exemplos os peixes, répteis e anfíbios. Ok, você deve estar pensando, aula de Biologia a essa hora? Não, apenas quero humildemente incluir nessa categoria os meus pés.

Meus pés são como termômetros, em dias quentes, eles esquentam demais e o resto do corpo fica mole. Em dias frios, ficam gelados e não há meias de lã suficientes. Neste caso, não é o corpo e sim a mente que é afetada e o mau-humor se instala.

Lagartear vem do costume de os répteis, inclusive o lagarto, ficarem expostos ao sol para se esquentarem. Como são os pés os responsáveis por locomoverem o resto do corpo, eles não perdem tempo, em dias frios, correm para a luz. O problema ocorre quando o dia está nublado, ou seja, quase sempre na cidade onde moro. Sem falar das chuvas que além de deixarem o dia mais frio, ainda molham os pés. Pronto, congelo até os ossos.

A primavera começou no final de setembro, durou cinco dias e agora em Curitiba é novamente inverno. Hoje fui ao supermercado e os funcionários estavam usando uns chapéus esquisitos. Pensei que fosse algo em comemoração ao dia das crianças, mas cheguei perto e li: "verão". Meu cérebro demorou para entender, afinal, o que é verão para uma curitibana? Mas, meus pés logo entenderam e não gostaram nem um pouco da ironia de tal supermercado. Tive que me segurar, os pés estavam querendo chutar todo mundo.
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Nossos ídolos ainda são os mesmos

4.10.09
No ano passado, quando estava ainda em experiência no meu trabalho, perdi a oportunidade de ver a apresentação da cantora argentina Mercedes Sosa em Curitiba. Trabalhava ainda à noite, no mesmo horário do show. Pensei, oportunidade não faltará. Hoje, a cantora faleceu aos 74 anos.

Conversei com minha amiga Josiane que foi na apresentação em Porto Alegre. Falei, "por favor, Josi, diga que foi ruim, que eu não perdi nada". Ela disse: "Ai, guria, não, foi maravilhoso, imperdível". Imaginem, a mulher com mais de 70 anos e ainda cantando extraordinariamente, emocionando o público.

Influência de minha mãe e tias, a voz de Mercedes Sosa sempre se espalhou por todos os cômodos lá de casa. Passei a admirá-la ainda mais depois de saber que ela enfrentou a ditadura em seu país, se exilou, foi censurada, mas continou cantando com sua voz maravilhosa em defesa dos mais fracos. É só prestar atenção nas músicas que cantava: "Yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar y una hermana muy hermosa que se llama libertad".

Em um show do Vitor Ramil, aqui em Curitiba também, o público começou a pedir para cantar "Semeadura". Ele respondeu, "depois que Mercedes Sosa gravou, não tenho mais coragem de cantar". Ninguém mais insistiu, talvez concordassem. Que honra ter uma canção gravada por uma das melhores cantoras do mundo e uma figura simples, simpática, mas com uma presença muito marcante.

Semeadura
(Vitor Ramil/Fogaça)

Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há
No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andar
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amar.

[REFRÃO]:
Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar

Nós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Pr'um dia acabar com esta escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos

REFRÃO

[Falado]
Minha guitarra, companheiro
Fala o idioma das águas, das pedras
Dos cárceres, do medo, do fogo, do sal
Minha guitarra
Tem os demônios da ternura e da tempestade
É como um cavalo
Que rasga o ventre da noite
Beija o relâmpago
E desafia os senhores da vida e da morte
Minha guitarra é minha terra, companheiro
É meu arado semeando na escuridão
Um tempo de claridade
Minha guitarra é meu povo, companheiro

REFRÃO
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